quarta-feira, 28 de junho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, três meses e um dia de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Meta infinita.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “Crisálida número dois”

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “Carta número um (De Atahualpa para Katty)”.

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “Era do gelo”..

Coluna Porta Aberta – Blima Bracher, crônica, “Só cego”.

Coluna Porta Aberta – Alda Lara, poema, “Anúncio”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação. 
Meta infinita


As pessoas (todas, sem exceção) vivem estabelecendo metas – de curtíssimo, curto, médio, longo e longuíssimo prazo – para suas vidas, a maioria imediatas, algumas tantas mediatas, mas que contam, sempre, atingir. Ninguém estipula objetivos apenas por diversão, como mero exercício de imaginação.

É verdade que alguns deles são de tal sorte impossíveis de serem atingidos, que descambam para o delírio, para o absurdo, para o surreal. Ainda assim, são alvos que mobilizam pessoas e lhes dão motivação (e, não raro, profundas frustrações).

Eu, você, o Zezinho, a Joana, o Joaquim, enfim todos nós temos metas estabelecidas, a maioria tão trivial que sequer classificamos como tal, outras tantas magníficas e, quem sabe, transcendentais (potencialmente factíveis ou não). Faz parte da vida.

O indigente, faminto, tem como meta prioritária e urgente, por exemplo, assegurar a refeição do dia. É movido pela necessidade e pelo instinto de sobrevivência. Por isso, seu próximo alvo é, se possível, garantir, também, a comida dos próximos dias, o que, para ele, já é um objetivo um tanto mais complicado do que o primeiro.

No íntimo, mesmo que não revele para ninguém (por não ter quem se importe com sua situação e que se disponha a ouvir suas revelações), objetiva mudar de vida: ter um emprego, uma casa mesmo que das mais rústicas, uma companheira, família e outras tantas coisas, comuns e triviais para a maioria de nós, mas que para ele são um sonho ambicioso e ousado, quase irrealizável.

O político, por sua vez, tem, como meta imediata, eleger-se. Mas acalenta uma infinidade de outras, mediatas, como se destacar nessa atividade, galgar posições no partido, fazer parte do governo, governar uma cidade, Estado ou país, enriquecer, conquistar prestígio e poder, e vai por aí afora.

Se tiver vocação para a vida pública, contar com apoios, for simpático e convincente, poderá atingir todos esses objetivos, ou pelo menos os principais. A maioria não os atinge nunca. Como se vê, as metas que estabelecemos raramente dependem exclusivamente de nós. Daí sermos vítimas constantes de tantas decepções e frustrações. Nem sempre (ou quase nunca) o mundo conspira a nosso favor. Via de regra, o que acontece é exatamente o oposto.

A meta de um time de futebol, por sua vez, é fazer o maior número possível de gols (não por acaso os dois travessões pelos quais seus atacantes têm que fazer a bola passar têm esse nome), não levar nenhum e, dessa forma, vencer o adversário da vez. Este é o objetivo imediato. Mas a coisa não para por aí.

Os mediatos são: ganhar, se possível, todos os jogos dos demais competidores, quando não, pelo menos a maioria deles; somar a maior quantidade de pontos positivos que puderem e conquistarem o título de campeões da competição em que estiverem envolvidos.

Estas, na verdade, são suas metas, digamos, menos ousadas. As mais (em alguns casos, delirantes, face à importância e a competência da equipe) é a conquista do campeonato mundial. São poucos, pouquíssimos os que logram alcançar a glória e o sucesso.

Se, individualmente, cada um de nós tem seu conjunto de metas – dependendo das necessidades e da imaginação de cada um – com os povos não é diferente. São o que chamamos, eufemisticamente, de “ideais”. E estes vão dos mais mesquinhos – como a conquista territorial alheia e o temor dos vizinhos por sua força e poder – aos mais grandiosos e altruísticos, como a igualdade, fraternidade, solidariedade, justiça e liberdade. Ascendem, quem sabe, aos milhões.

Nenhum povo, ou nação, alcançou todas ou mesmo algumas dessas metas, em qualquer tempo que fosse. Nem mesmo por curtos períodos. Falar em igualdade de direitos e deveres, por exemplo, não passa de monumental hipocrisia. Tanta, que dispensa comentários.

Fraternidade pode existir em algum período, posto que mero arremedo dela, mas, mesmo assim, é raridade. O mesmo ocorre com as demais virtudes que, no fundo, não passam de meras palavras pomposas, mas despidas de conteúdo. Todavia, não deixam de ser metas, que deveriam ser imediatas, urgentes, urgentíssimas, mas se limitam a ser mediatas, remotas, remotíssimas.

Nem todos os povos tiveram, de fato, esses objetivos (embora jurassem por todas as juras que sim). Ainda hoje, princípios de conduta, tão simples na essência, soam como se fossem meras e delirantes utopias. Caso viessem a se concretizar, e se manter, logicamente, na sucessão de gerações, seriam alvos finitos, posto que atingidos. Todavia, a maior meta, tanto individual quanto coletiva, do mundo, não é nenhum desses valores citados (deveriam ser todos). É o amor, finito enquanto sentimento, infinito enquanto ideal.

Boa leitura!



O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Crisálida número dois


* Por Mara Narciso
 
Não sei de onde me veio aquele furor faminto repentino. Casada há dois anos e decidida a ter um filho, estava de fato grávida, e passado o enjoo inicial, surge uma gana descontrolada por comida, de tal ordem, que me fez engordar 30 quilos em seis meses. Após uma cesariana, tornei-me, enfim, mãe. Estava realizada, apesar da ameaça que o desconhecido opera.

Feliz no meu papel, após quatro meses voltei ao trabalho de professora. Tinha quem cuidasse do meu filho, assim, minha vida continuava organizada. Numa peleja gloriosa, voltei aos meu 65 quilos anteriores a gravidez, mas engravidei de novo, desta vez por descuido. E lá me vêm novamente os trinta quilos, que, depois do segundo parto, não consegui eliminar. Durante a amamentação ganhei muito peso. A chegada aos cem quilos foi fatal, porque daí para frente o limite inexiste. Fui a vários endocrinologistas, iniciei mudanças no estilo de vida, abandonando o sedentarismo, pizzas, sanduíches, chocolate e refrigerante, mas minha aderência logo se arrefecia, e eu via o marcador da balança subir.

Perdia cinco quilos e ganhava dez, sofria para vencer a vontade de comer, para depois desistir, pensando: amanhã recomeço. Vendo que não conseguia fazer dar certo, sentia-me esgotada, sendo confrontada com a culpa. Estava imensa diante do espelho, nada me servia. Não me reconhecia nas fotos, o mundo ficou pequeno para mim quando ultrapassei os 120 quilos. Era um gigante, sem espaço nem mobilidade.

A vida boa e o emprego não me saciavam, então precisava comer. Eu, uma mulher plena, com vida afetiva e profissional bem estabelecida, marido compreensivo, filhos saudáveis, mãe colaborativa, vi mudar, com a obesidade, o jeito de as pessoas me olharem. Até numa reunião de trabalho, desprezavam minha opinião, não me davam tempo para me manifestar, em represália ao enorme espaço físico que eu ocupava.

Reparei nas amigas, que após o segundo parto me estimulavam, olharem-me com desdém, como se eu fosse preguiçosa, não tivesse amor próprio e nem coragem para tirar o que me deixava infeliz. Usei remédios prescritos pelo médico e clandestinos em altas doses e longos prazos. Cheguei a perder 25 quilos, mas inexoravelmente ultrapassava o peso anterior. Era algo incontrolável, que me dominava.

Procurei fazer terapia comportamental com psicóloga, por diversas vezes fiz matrícula na academia, mas o exibicionismo e o desfile de belos corpos por lá, não me permitiam frequentar o lugar. Numa caminhada, passar na mesma porta duas vezes era incômodo, pois notava que as pessoas me olhavam e pensavam: não vai adiantar. Exausta, sentindo o permanente massacre da obesidade, que tirava meu fôlego e a liberdade de ir e vir cheguei a pensar em morrer, mas, acabei por me decidir, após inúmeras pesquisas, ser submetida à cirurgia bariátrica.

Foi um ano de preparação, participando de grupos nas redes sociais, conversando com gente que fez e deu certo, além dos desastres, das ineficácias e até das mortes. Como atingi IMC de 49, 6 - 135 quilos em 1m e 65 cm -, meu plano de saúde cobriria meu tratamento. Passei por vários profissionais, fiz inúmeros exames e após ver o lado físico e emocional, entrei no bloco cirúrgico. Seria uma cirurgia pela via laparoscópica.

Quando acordei, estava tudo terminado. Foi normal, e não senti grandes dores. Daí, passei pelo périplo da dieta líquida, depois pastosa e por fim sólida, ao longo de três meses. A perda de peso no 1º mês foi monumental, quase um quilo por dia. Com exercícios, ao fim de um ano estava com 85 quilos. Programei e passei pela reconstrução do meu corpo. Fiz a retirada de pele no abdômen e tive refeitas as mamas. Renasci para o mundo, e para mim mesma. Saí do casulo que me esmagava.

Com 45 anos, eu, que não era aceita, agora era convidada e elogiada. Virei referência.  Não que eu queira ditar normas, - já ditando-, ou achar que o obeso não pode ser feliz, mas eu, que passei pelo “gordo”, “magro”, quase como o “morto, vivo”, das brincadeiras infantis, proclamo a todos que ter a chance de renascer em outro corpo, que ainda sinto estranho, parecendo não ser meu e nem mesmo ser eu, é uma estranheza agradável. Não teria outro jeito de emagrecer sem operar o estômago? Não, não tinha. Meu marido gostou de tudo, especialmente do amor que sinto por mim e por ele, concretamente. Com essas novas asas, agora eu quero voar muito!


* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”


Carta número um (De Atahualpa para Katty)


* Por Urda Alice Klueger


Oi, Katty!

Tenho certeza de que você se lembra de mim! Sou Atahualpa, o cachorro da Urda – quer dizer, agora sou um dos cachorros da Urda, embora saiba que sou o mais querido e o mais importante para ela.

Quando viemos para cá, éramos somente eu e a Manuelita Saens, minha mana gata, lembra-se dela? Foi bem complicado para a Manuelita se acostumar aqui. Chegamos 4 dias antes da mudança só para ela ir se habituando. Ela descobriu uma passagem para o forro da casa e o primeiro mês passou lá – só descia à noite, quando escutava o familiar barulhinho de televisão ligada, ou quando Dona Julita, nossa vizinha, aparecia para uma visitinha. Até hoje Manuelita anda arisca e complicada, e a Urda arranjou a casa de um jeito que ela pode ir e voltar quando quer, passando por acessos alternativos. Tem uma mesinha chique, lá no quarto dos fundos, onde sempre tem comida e água para ela, e uma caminha de lã para os dias frios.

Fazia pouco mais de um mês que estávamos aqui quando uma mulher de fora veio até aqui à nossa praia jogar um cachorrinho fora. Era dia de maré cheia, e ela jogou o cachorrinho na maré, para que morresse. Por sorte ele salvou-se e a nossa família aumentou. Ele não era um bebê, mas um cachorrinho de dois a três anos, segundo o veterinário, e fora muito maltratado. Depois que saciou a fome e recebeu amor, ficou um bichinho até bem bonitinho, só que parece mais uma raposinha do que um cachorro, e por causa disso é que seu nome ficou sendo Zorrilho. A gente é bem amigo um do outro, embora quem mande nele sou eu, claro!

E quando passou mais um mês, desertaram uma gatinha por aqui, e nossa família aumentou de novo. Era tão pequenininha que ficou guardada dentro da banheira do quarto até crescer um pouco mais. Demorou uma semana para ela aprender a sair da banheira e começar a dominar o mundo. Chama-se Domitila Chungara, mas passou muito tempo até descobrirmos que ela era um menino. Ficou com o nome, de qualquer forma. Domitila come como uma retroescavadeira e é forte como um pônei, e ela, eu e Zorrilho nos damos muito bem, mas Manuelita não quer saber dela. Domitila é tão da pá virada que vai à praia brigar com os cachorrões e às vezes arranja tal encrenca que tem que passar a noite no alto de uma árvore lá da praia, para salvar a vida. Andou desaparecida durante seis dias, e eu e a Urda acabamos encontrando ela bem longe daqui, em outra comunidade.

E agora veio a Tereza Batista, uma cachorrona MUITO maior que eu, que andava abandonada por aí. Tereza Batista andou mordendo algumas pessoas, inclusive nosso vizinho seu Mário Japonês e o futuro dela estava em perigo. Acabou vindo também para a nossa família. É malhada de branco e laranja, e eu também mando nela. Ela, Zorrilho e Domitila parecem três crianças pequenas: brincam o tempo todo, e depois caem de tão cansados e dormem por algumas horas. Lá uma vez ou outra entro na brincadeira, mas não é sempre – afinal, sou um respeitável cachorro que vai fazer dez anos!

Na verdade, queria contar como estou: depois de quase oito meses aqui, sou um cachorro feliz! Tenho saúde, largueza, liberdade, e a Lourdes, que dá banho em mim lá na Barra do Aririu, deixa a Urda ficar junto ajudando e é muito querida comigo. Corro na praia, na rua, no quintal, e tenho uma nova grande amiga, que é a Maria Antônia, que sempre passeia com a gente. A Maria Antônia não é cachorro nem gato, é uma pessoa que tem uma casa muito bonita! A Urda deixa eu me molhar todo no mar, me sujar todo de areia e comer o que ela e a Maria Antônia chamam de “porcarias”, que são coisas deliciosas que existem nas praias, como um bicho chamado de Maria Mijona, que vive junto com os mariscos. Quando tiram os mariscos do mar as Maria Mijonas ficam abandonadas na praia e se transformam em deliciosa carne seca marinha, irresistível para um cachorro livre e feliz como eu sou! Estou gordo e despenteado, mas tenho muita saúde e alegria de viver! Nem me lembro daquela vida oprimida que foi minha vida até chegar aqui! Somente às vezes recordo das pessoas de quem gostava muito e fico com saudades. É por isto que estou lhe escrevendo.

A Urda lhe manda um grande abraço e eu lhe mando lambidas salgadas!

Até a próxima!

Atahualpa.

Em tempo: Um ENORME leão marinho dormiu alguns dias e noites aqui na nossa praia antes de partir para uma longa viagem até o Polo Norte, e por causa dele eu, Zorrilho, a Urda, o Willy e a Shewi, que são nossos vizinhos peruanos, saímos no jornal O Palhocense, que estava lá tirando fotografia. Fiquei todo prosa!

Sertão da Enseada de Brito, 18 de junho de 2017.


* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).


Era do gelo


* Por Alberto Cohen


Gelo que se derrama pela alma da canção,
jeito de ter mil pressas, preces de não dizer não
ao tempo que não tem tempo, ao tempo que corre em vão.

Estão jogadas nos quintais,
abandonadas nos jardins,
as flores que ainda esperam
plantador.

Gelo que não declama, clama a alma da canção,
pressas de não ver o jeito dos versos, quase oração,
rabiscados nas cavernas de tempos que já se vão.

Então, jogados nos quintais,
abandonados nos jardins,
olhos que não viram flores
plantam a dor.
 


* Poeta paraense
Só cego


* Por Blima Bracher


Ser poeta é não ter descanso, nem no remanso. Manso é o mundo dos tolos. Poetas choram e se arrepiam. E rodopiam, tontos de sono.

Preciso escrever e descrever meu olhar supra real sobre o mundo. Mundano. Danem- se os covardes. Os que não sangram e não se amassam.

Não estou nem aí pros que saem engomados dos armários. 
A essência está em pelos arrepiados. E sou toda lágrimas a todo instante.

Descansem olhos, meus supra olhos. Descansem e me deem descanso. Pois, preciso escrever e dormir. O sono dos justos, por justa causa.

Mil pílulas entorno. No entorno da minha cama, meu anjo loiro ressona. Como são longas as horas e curtas as palavras. Nelas não cabe meu apelo. Pelo menos queria dormir…

Meus dentes, bem os tenho na boca. Alinhados e brancos, mas o sorriso não me é fácil. Invejo as gargalhadas espontâneas. As risadas de Leila ecoando aos quatro cantos do apartamento enquanto o sol entra pelas janelas.

Ilusões juvenis, não mais as tenho. Paixões? Quem me dera ser poeta…


* Jornalista



Anúncio


* Por Alda Lara


Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue…
Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados…
Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços…
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços…
Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue…
Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!…
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei…
Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo…
E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes…
Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo…

* Poetisa angolana




terça-feira, 27 de junho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos e três meses de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Quem se importa?.

Coluna Á flor da peleEvelyne Furtado, crônica, “Qualquer idade”.

Coluna Observações e reminiscênciasJosé Calvino de Andrade Lima, crônica, Ajudas descaradas”.

Coluna Do real ao surreal Eduardo Oliveira Freire, conto, “Dever cumprido”.

Coluna Porta Aberta – Marleuza Machado, poema, “Ligeiro adeus”.

Coluna Porta Aberta – Maira Parula, crônica, “Panair”.


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Livros que recomendo:


Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Quem se importa?


A solidariedade estaria em baixa, como querem alguns? As pessoas do nosso tempo são mais egoístas e individualistas do que as de outras épocas? Não creio que sejam, até que alguém me prove o contrário. Ademais, não há como mensurar esse tipo de comportamento. Ele é individual, não de grupos. Há (sempre houve), os que parecem venerar o próprio umbigo, achando que o mundo gira, ou deveria girar ao redor deles. E há gente abnegada que sente compulsiva necessidade de ajudar quem esteja necessitando, sem que sequer saiba de quem se trata. Sempre houve indivíduos assim.

A pergunta inicial vem a propósito de uma notícia que li, há uns oito anos se não me engano, na internet, dando conta de uma pitoresca experiência, feita por determinado ator (não anotei seu nome, mas não importa). Ele simulou que estava sofrendo um enfarte, bem no centrinho de São Paulo, em plena Avenida Paulista, maior centro financeiro da América Latina, por onde trafegam, diariamente, milhares, quiçá milhões de pessoas, além de dezenas de milhares de veículos.

Sabe quantos se ofereceram para ajudar a suposta vítima? Nenhum! Ninguém, absolutamente ninguém se ofereceu para socorrer o ator, supostamente em dificuldade! Sim, amigos, ainda é possível se morrer, sem o mínimo socorro, em uma movimentada artéria pública da terceira maior cidade do mundo! E o que isso quer dizer? Que a solidariedade acabou em São Paulo, ou no Brasil, ou na América do Sul ou no mundo?

Afirmar isso seria não apenas precipitado, como irresponsável. Tratar-se-ia de generalização e como alertou, um dia, o jornalista Nelson Rodrigues, “toda a generalização é burra”. Não devemos, pois, cair na tentação de generalizar o que quer que seja somente face a evidências, por mais reveladoras que pareçam.

E por que ninguém ajudou o ator que simulava enfarte? As possibilidades são muitíssimas, talvez tantas quantas as pessoas que trafegavam, naquela hora, no local. A simulação, por exemplo, pode ter sido muito grosseira, de modo a não convencer os transeuntes. É possível, pensem bem, mesmo que não seja provável. Pode ser que os que cruzaram com a suposta vítima achassem que ela estivesse apenas embriagada, e, por isso, não lhe deram maior importância.

Outra possibilidade é a de que, por uma dessas coincidências inexplicáveis, os que trafegavam pelo local naquele momento fossem todos, sem exceção, insensíveis. O acaso, às vezes, reúne pessoas que pensam e agem de forma semelhante (embora isso não seja muito comum). Isto não quer dizer, todavia, que “todos” os que passam, diariamente, pela Avenida Paulista, sejam egoístas e adoradores do próprio umbigo. E muito menos que em São Paulo não haja mais ninguém dotado de senso de solidariedade. Uma afirmação assim seria, no mínimo, estúpida, para não dizer outra coisa.

Os homens e mulheres de hoje não são melhores e nem piores do que os de outras épocas. São, isso sim, mais numerosos. Para o leitor ter pálida ideia a respeito, basta informar que até a década de 50 do século XX a população mundial era de dois bilhões de habitantes. Hoje, apenas a China e a Índia, juntas, têm cifra que é 800 milhões maior do que essa.

Há, sim, quem se importe com os outros. Milhares de pessoas, Brasil afora (e já nem falo do mundo), mantêm, ou ajudam a manter creches, asilos, orfanatos e hospitais de caridade. Muitos o fazem de forma absolutamente anônima, apenas pelo desejo de ajudar. À pergunta “quem se importa?”, portanto, é possível de se responder: muitos! Quantos? É impossível de se quantificar. Ninguém tem o dom de penetrar no coração e mente das pessoas e descobrir o que pensam e sentem.

Claro, reitero, há uma multidão de insensíveis. Sempre houve e temo que, desgraçadamente, sempre haverá. Sem dúvida que existem milhões de pessoas que se sentem (e que agem) como se fossem o centro do mundo e que, por isso, não se veem comprometidas com carências, aflições e problemas alheios. Em que época, porém, o mundo se viu privado desses parasitas? Nunca!

O poeta Mário Quintana, com aquele seu irresistível senso de humor, escreveu, certa feita, de forma inteligente (como sempre): “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”. O que quis dizer? Tentou justificar, acaso, a falta de solidariedade de alguns (diria de muitos), como a experiência feita em São Paulo pareceu comprovar? De jeito algum!

O poeta quis se referir ao fato de pretendermos, em algumas ocasiões, transferir nossos fracassos e aflições para os outros. De nos acomodarmos e querermos que outras pessoas resolvam por nós o que nos compete, exclusivamente, resolver. Em alguns casos, até conseguimos isso. E quando isso ocorre (e creiam, se verifica com maior freqüência do que podemos supor), comprova-se, na verdade, a falsidade da tese de que a solidariedade tenha acabado ou esteja em declínio. Quem se importa? Muitos se importam, certamente!


Boa leitura!


O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Qualquer idade


* Por Evelyne Furtado


Luiza adormeceu na casa dos trinta e nos sonhos tinha vinte e poucos. Então acordou na obrigatoriedade de se comportar como uma mulher de sessenta e tantos naquela manhã, em que lhe tiraram com apenas uma frase, o excesso de gravidade dispensável a uma mulher em qualquer idade.

Na semana seguinte sentiu como se dezesseis tivesse, embora se esforçasse para pensar com a mente de quarenta.


Nessa contradição lembrava Sinhá Rita, personagem de um conto de Machado de Assis, que trazia uma idade na certidão de nascimento e outra no olhar. 

Agora Luíza tem todas as idades durante um só dia. Na frente do espelho alterna na avaliação: uma hora se vê como sempre foi; em outra estranha as novas linhas a lhe marcar o rosto. 

No seu íntimo a incoerência se repete: em um momento age com esperança adolescente, para em seguida, com certo cansaço, recolher seus desacertos,

Assim Luíza segue sem fazer contas, mas com muita vontade de chegar aos noventa, vivendo muitos momentos felizes.



* Poetisa e cronista de Natal/RN.