quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, seis meses e vinte e um dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Rio das horas.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “Relacionamentos amorosos através dos tempos”

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “Meu tipo inesquecível”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Qual flor tu serias?”.

Coluna Porta Aberta – Abílio Martins, poema, “Beijos”.

Coluna Porta Aberta – Alex Polaris de Alverga, poema, “Idílica estudantil”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação
Rio das horas


O tempo foi comparado, numa feliz metáfora, pelo poeta Miguel de Unamuno, a um rio, cujas horas fluem, sem cessar, da inesgotável fonte do “amanhã eterno” rumo ao oceano da eternidade. Aliás, comparações, como esta, é que não faltam na (vã) tentativa de explicar essa coisa abstrata, essa convenção humana e que, no entanto, paradoxalmente, é tão concreta. Esse é um tema que tem rendido (e sempre irá render) muitos e muitos textos, das mais variadas naturezas, a escritores de todas as épocas.

A mim, por exemplo, já rendeu dois livros: “Lições no Tempo”, de poesias e “Cronos & Narciso”, de crônicas, o primeiro dos quais ainda inédito, que, contudo, pretendo, de uma forma ou de outra (ainda não sei como), fazer chegar às mãos de um número incontável de leitores. O assunto está presente em quase tudo o que escrevo, quer se trate de literatura (ou seja, textos de ficção), quer de jornalismo. É tema recorrente, inesgotável, perene (como os grandes rios, Amazonas, Nilo, Mississippi, Reno, Danúbio etc.etc.etc.), instigante e apropriado tanto à poesia, quanto à reflexão.

Mais do que uma poética imagem, os versos de Unamuno expressam, com graça e beleza, uma verdade óbvia, da qual nem sempre nos damos conta. Como as águas de um rio não retornam da foz à nascente, assim as horas passadas nunca voltam ao princípio do tempo (existe algum?).

Tentamos, teimosamente, regressar a um passado supostamente radioso e feliz, mas em vão. Ele nos é, e sempre será, interdito. É uma façanha que só se torna possível na fantasia, em ficção (como, por exemplo, no filme “De volta ao passado” ou congêneres).

Como não podemos pisar nas mesmas águas de um rio (em cada ponto em que elas vierem a passar), não temos a mais remota possibilidade de tornar a viver as horas que já passaram. Embora seja algo para lá de óbvio (e não estou, esteja certo, menosprezando sua capacidade intelectual, querido leitor, mas apenas a desafiando) muitos parecem não entender isso e teimam em tentar parar o tempo. Impossível! Voltar? Mais impossível ainda!

Não podemos fazer essa meia volta, esse retrocesso, por nenhum meio ou qualquer razão. E é bom que assim seja. Queiram ou não, a vida (nenhuma vida) não tem reprise. Ou seja, não podemos retroceder no tempo (um bilionésimo de segundo que seja) nem para usufruir das benesses das coisas boas que vivemos e nem para consertar erros que cometemos e que nos tragam conseqüências funestas.

O saudoso humorista Chico Anysio, num quadro humorístico que tinha, há já vários anos, no programa “Fantástico”, da Rede Globo, sugeriu, certa feita, que nossa vida deveria ter um rumo diferente do que tem que, no seu entender, nos seria mais justo e mais benigno.

Disse que o ideal seria que, em vez dos anos serem contados a partir do nosso nascimento até a velhice (como de fato são), essa contagem pudesse, a partir de um determinado ponto da nossa existência (e propôs que este marco divisório fosse quando completássemos 40 anos, por exemplo), ser regressiva. Que após o auge da nossa maturidade, em vez de envelhecer, fôssemos ficando cada vez mais jovens.

Se em 2016 estivéssemos com 40 anos, em 20’7 estaríamos com 39; em 2018, com 38; em 2019 com 37 e, assim, sucessivamente, até retornarmos ao seio de nossa mãe, então, também, rejuvenescida. Esta, no seu entender (e no meu, caso houvesse tal possibilidade) seria uma morte gloriosa, digna da grandeza e transcendência humanas.

Mas o rio das horas não é assim. Nunca sobe a encosta em direção à nascente. Flui, implacável, rumo à foz e, posteriormente, ao oceano da eternidade. Leva, consigo, de roldão, não somente nossas obras, sonhos, sentimentos e pensamentos e no fim a nós mesmos, como também famílias, povos, nações, civilizações, planetas, sóis, galáxias e universos, num infindo processo de renovação.

Os versos de Miguel de Unamuno a que me referi, citados por Jorge Luiz Borges no livro “História da Eternidade”, são estes:

Noturno, o rio das horas flui
de seu manancial, que é o amanhã/eterno...”

Deve haver algum motivo lógico para que as coisas ocorram desta maneira. Este, todavia, sequer atinamos (e, provavelmente, jamais iremos entender) qual seja. Faz parte do grande mistério, que é a vida e tudo o que a cerca e a mantém.

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Relacionamentos amorosos através dos tempos


* Por Mara Narciso
 
A minha mãe ficou casada por três décadas e era uma pessoa descrente do casamento e do amor. Dizia: quando a mulher se casa, a família e os amigos a levam, porém quando se separa, vai sozinha.
 
Pouco sei do casamento dos meus bisavós maternos. Foram eles Jason Gero de Souza Lima (1872) e Florisbella Queiroga. Ela era corajosa e defendia o marido através de seguranças da fazenda, chamados “jagunços”. Tiveram uma penca de filhos e criaram 13 até a idade adulta. Nome de rua, Jason Gero era comerciante poderoso, comprava diamantes, importava madeiras que vinham de trem, e era dono da Fazenda Lagoa da Barra. Morreu perto dos 60 anos, em consequência de dose dupla de medicamento para asma. Sua esposa nada sabia dos seus negócios, que evaporaram com sua morte.
 
Meus avós maternos Petronilho Narciso e Maria do Rosário de Souza Narciso, namoravam e nisso tinham a desaprovação do pai dela. Pouco tempo depois do sepultamento de Jason Gero, vovó, com 21 anos e vovô com 24 se casaram em quatro de outubro de 1931. Com todo o cerco do namoro proibido, concretizado no casamento, ainda assim meu avô foi infiel. Tiveram 11 filhos. A minha avó o perdoou décadas depois, mas não se esqueceu. Apenas a morte dela os separou, após 55 anos casados. Dos nove filhos que chegaram à idade adulta, apenas quatro não se separaram.
 
Meus pais Alcides Alves da Cruz e Maria Milena Narciso Cruz se casaram em 12 de dezembro de 1953, ele, aos 24 anos e sem amor e ela, aos 19, cheia de ilusão. Viveram juntos por 31 anos, Milena envolta em sentimentos hostis de indiferença e opressão. Ela, na prática da submissão, ele no mando, tiveram quatro filhos. Meu pai deu mostras de vida dupla. Quando minha mãe comprovou, dez anos depois do acontecido, ficou irredutível. Rompeu o casamento e nem laços de amizade quis.
 
Eu me casei aos 22 anos, apaixonada por Flávio Rocha Silveira, com 28 anos, em 15 de dezembro de 1977. Ficamos casados durante 29 anos, mas acabou. A nos unir, permaneceu Fernando, o nosso filho. Separamos e não mantivemos amizade.
 
Hoje, com as redes sociais, os casais se formam, se transformam, se deformam, se maltratam e se separam com a velocidade de um toque na tela. Na vitrine virtual Facebook fica-se sabendo quem está temporariamente com quem. Ao se mudar o estado de relacionamento, os olhares dos amigos/contatos se voltam para o casal desejando felicidades. Como a inveja é um sentimento generalizado, é comum que olhares “seca pimenteira” ajam tirando energia do casal, como também o afeto que porventura sintam. Logo se dá o rodízio das cadeiras, e um novo casal se forma. Por favor, pegue a sua senha.
 
Nesse mundo pequeno, assombrações do passado e até mesmo do futuro se fazem presentes, e em nome de não ficar só, tenta-se um replay, mas o amor é o grande perdedor. Conheci casais de gente comum, que namoraram anos e, depois do casamento ficaram juntos apenas alguns dias.
 
Juntar duas almas debaixo do mesmo teto é prova para maratona. Hoje, poucos se sujeitam à tolerância e ao sacrifício. O convívio do dia a dia, quando um dos dois não se anula ou ambos querem seu lugar ao sol, é um desafio para santos. A prova de fogo começa na lua-de-mel, no espaço exíguo de um quarto. Caso não se irrite nesse curso intensivo, é indício de que o casamento poderá durar.
 
Revendo a história da família, com irmã e primas que já se casaram três vezes, mesmo não tendo formação para analista comportamental, procuro entender o motivo dos casamentos antigos começarem sem amor e se arrastarem por 50/60 anos e a razão dos de hoje começarem apaixonados e existirem apenas por meses.
 
Fique alerta ao tempo, pois em dois anos o que for paixão se acaba. Ela poderá se transformar noutro sentimento, mas, afinal, onde mesmo foi parar o amor?


* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”



Meu tipo inesquecível

* Por Urda Alice Klueger

Ele nasceu no finalzinho do século passado, e seu sonho era o de viver em três séculos diferentes. Com o maior bom humor, planejava alcançar o ano 2000, coisa difícil, que acabou não dando certo, mas que o fez sonhar muito.

Seu Frederico Kilian tinha 54 anos quando eu nasci, mas só fui conhecê-lo quando ele já passara dos oitenta. Era um homem pequenino e baixinho, que parecia ter encolhido com a idade. Como não o conheci quando mais jovem, fiquei sempre com a impressão de que encolhera mesmo.

Seu Frederico Kilian me deu a maior lição de vitalidade e de amor à vida que jamais tive. Lúcido, alegre e brincalhão quase até o fim, cheio de incontestável energia física, ele me impressionou desde o dia em que o conheci. Fiquei a observá-lo com muita atenção por algum  tempo, até que nos tornamos amigos. Que amigo que era seu Frederico! Beirando os noventa anos, tinha um pique difícil de acompanhar. Todas as tardes podia se encontrá-lo a caminhar pelas ruas, no seu passinho ágil e miúdo, sempre com destino certo.
Para onde vai, seu Frederico?

Ia sempre visitar alguém, e parava para me contar que na véspera visitara o amigo tal, que tivera um derrame e estava paralítico, e abanava a cabeça com pena:
Os meus amigos estão acabando! Quase todos estão doentes ou morreram!

Era uma constatação lúgubre, normal na avançada idade dele, mas ele não se deixava abater. Mudava logo de assunto:
Hoje à noite...

Sempre tinha um plano para a noite, depois da visita da  tarde. Comparecia a todos os coquetéis, vernissages e outros eventos que acontecessem na cidade. Eu frequentava os mesmo ambientes que ele, e nas festas, abismava-me com o seu pique: se havia uísque, ele bebia uísque: se havia vinho, ele bebia vinho; se havia cerveja, ele bebia cerveja, e assim por diante, numa demonstração de vitalidade que a gente julga presente só nos jovens.

Nas manhãs, ele trabalhava. Exercia sua antiga profissão de fazer inventários, fazia traduções para a revista Blumenau em Cadernos, escrevia textos. E era galante o nosso velhinho, ah! como era! Não perdia manifestação pública, e lembro bem da Copa do Mundo de 1986, quando, numa das primeiras vitórias do Brasil (só houve as primeiras, mesmo), eu fui com minha turma festejar no carnaval que, aqui em Blumenau, acontece na Rua XV de Novembro. Seu Frederico Kilian, com seus 88 anos, lá estava no carnaval do Brasil, dançando e fotografando. Dançou samba comigo no meio da rua, num arrasta-pé que abriu a roda e fez todo o mundo por perto aplaudir. Agradeceu, depois, a ‘marca’, como se estivesse em elegante salão de baile.

Ele gostava da minha companhia, e, galantemente, convidava-me para festas mais solenes, aos sábados, aonde íamos de braços dados. Tenho as fotografias dessas ocasiões para lembrar-me com saudade.

Mais que ninguém, seu Frederico gostava de viajar. Beirando os noventa anos, decidiu fazer viagem em navio de turismo até o extremo sul da América do Sul. Era um mês no mar, e a família julgou que voltaria morto. Preocupados, os familiares sequer o deixaram voltar com o navio até Santos: foram de carro, buscá-lo no porto de Rio Grande/RS. Esperavam encontrar lá um velhinho derreado, mas seu Frederico saltou do navio lépido e faceiro, delirantemente aplaudido por todos os passageiros. Tinha sido eleito o passageiro mais simpático, tinha gravado entrevistas com todo o mundo do navio, e, ah! ele delirava ao contar! – num baile à fantasia, fantasiara-se de beija-flor para poder beijar todas as moças! Assim era seu Frederico!

Depois dos noventa anos, ainda fez muitas viagens. Creio que a mais ousada foi ter ido conhecer o Egito, e se aventurado a andar de camelo, lá pelos 92 anos. A família já não o deixava viajar sozinho, e a gente via que aquilo não lhe agradava muito.

Ele faleceu nos primeiros dias de 1995. Só ‘baixara a bola’ nos últimos meses, e quando o vi pela ultima vez antes da sua morte, ele ainda estava planejando escrever um romance. Contou-me todo o enredo do romance, sobre uma moça que se suicidara em Blumenau no final do século XIX. Talvez, algum dia, eu escreva o romance por ele.

Seu Frederico Kilian sonhava em viver em três séculos diferentes, e não conseguiu. Mas como viveu intensamente os 96 anos de vida que Deus lhe deu! Quero, um dia, ser uma velhinha como ele!

Blumenau, 17 de agosto de 1996.


* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).




Que flor tu serias?

* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral

Que flor tu serias?
Margarida ou rosa chá?
Girassol ou flor do manacá?
Serias flor de ostentação ou
suaves mimosas em profusão?
Na dúvida deixe o sol te orientar
e se refaça em cores!


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
Beijos

* Por Abílio Martins

Beijos de mãe são harpejos 
De doces, nobres encantos 
Tão diferente dos beijos 
Que dão as beatas nos santos... 
 
Beijo de moça bonita 
Faz  bem aos nervos, faz bem! 
Mas beijo de sogra é fita 
Que não ilude a ninguém... 
 
De beata um beijo, eu digo, 
Que é melhor morrer à míngua, 
Só por causa do perigo 
Da vizinhança da língua... 
 
Aquele beijo, criança 
Que prometeste, confessa, 
Nunca passou de esperança, 
Nunca passou de promessa. 
 
Talvez que tenham contado, 
Com simulado escarcéu, 
Que dar-se um beijo é pecado, 
Que fecha as portas do céu. 
 
Mas que impostura! Desejo 
Que te convenças,  meu bem 
Mesmo às ocultas um beijo 
Nunca faz mal a ninguém. 
 
Tantos encantos encerra 
O beijo, é coisa tão boa: 
Quem não dá beijo na Terra, 
Deus lá no céu não perdoa. 
 


* Poeta cearense.
Idílica estudantil

* Por Alex Polaris de Alverga

Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
agente se corta.


  • Poeta de João Pessoa (PB), autor dos livros de poesias “Inventário de cicatrizes” e “Camarim de prisioneiro” e do romance “A quadratura do ó”, ex-preso político durante a ditadura militar e vítima de tortura.



terça-feira, 17 de outubro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, seis meses e vinte dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Desperdício de talentos.

Coluna Á flor da peleEvelyne Furtado, crônica, “Quando me conheço”.

Coluna Observações e reminiscênciasJosé Calvino de Andrade Lima, crônica, “Crianças têm culpa?”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “De tocaia”.

Coluna Porta AbertaJomard Muniz de Britto, poema, “Laboratório de sensibilidade”.

Coluna Porta Aberta – Adão Ventura, poema, “Origem”.


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Livros que recomendo:


Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Desperdício de talentos


O Brasil (infelizmente) tem como uma das suas características o desperdício. Não digo que seja o único e nem o mais perdulário. Mas os outros países não me importam (não muito, pelo menos), pois entendo que cada povo deva resolver seus próprios problemas. Os nossos, portanto, cabe apenas a nós resolvermos. Não se trata de nenhum ufanismo delirante e idiota e muito menos de estúpida alienação, mas de ser-se prático e objetivo.

O Brasil desperdiça de tudo: recursos naturais, como florestas, águas e minérios; alimentos, enquanto muitos ainda passam fome nesta terra em que, conforme constatou, há mais de 500 anos Pero Vaz Caminha, “em se plantando, tudo dá”; vidas, sonhos e talentos. Fosse tudo isso devidamente aproveitado, seríamos, sem favor algum, não apenas super, porém hiperpotência mundial. É pura questão de lógica. Mas não somos (ainda).

A formação do povo brasileiro implicou em horrendos genocídios, de fazer inveja ao vílimo Pol Pot, no Camboja, e aos paranoicos e criminosos asseclas de Adolf Hitler com sua “solução final”, o apocalíptico Holocausto de 6 milhões de judeus. E não se trata de exagero. Foi um processo perverso, maligno, canibalesco, posto que aleatório, sem planejamentos prévios.

O antropólogo, etnólogo, educador, escritor e político Darcy Ribeiro (um dos homens mais lúcidos e brilhantes que este país já produziu e um dos mais perseguidos pelos que fizeram de tudo para que não seguíssemos nossos próprios destinos, mas ficássemos a reboque, perpetuamente, dos Estados Unidos), classificou, em seu livro “O povo brasileiro – a fundação e o sentido do Brasil”, o sistema, que agiu de forma tão sanguinária e brutal, de “máquina de moer carne”. E moeu muita!

Sua estimativa (bastante conservadora) é que, entre índios e negros trazidos da África, dez milhões de pessoas foram massacradas de 1500 a 1888! Esta terra generosa, que nos abriga e alimenta, portanto, foi regada (literalmente) com sangue, muito sangue de pessoas inocentes e indefesas. O País desperdiçou (e infelizmente ainda desperdiça) um bem tão precioso que sequer tem preço: vidas!

Mas não é a esse desperdício que me refiro hoje, nestas nossas descompromissadas reflexões. Trago à baila um infinitamente mais brando, porém nem por isso menos lamentável: o desperdício de talentos. Trata-se da morte dos sonhos de milhares, provavelmente milhões de escritores em potencial, que deixaram de ilustrar e engrandecer a Literatura Brasileira por absoluta falta de oportunidades. Exagero meu? Creiam-me, não é.

Atentem para o que escreveu a respeito a pesquisadora Maria Célia Rua de Almeida Paulillo, em seu excelente livro “Tradição e Modernidade: Afonso Schmidt e a literatura paulista (106-1928)” (Coleção Selo Universidade): “Publicar um livro no Brasil do começo do século XX era uma realidade inacessível aos escritores novos e sem recursos. As editoras eram poucas, geralmente grandes empresas como a Francisco Alves, a Garnier e sua atividade concentrava-se na publicação de livros didáticos e obras sobre a legislação brasileira”.

O leitor dirá: “Grande coisa, hoje não é muito diferente!”. Embora seja uma absurda corrida de obstáculos, porém, hoje as oportunidades para novos talentos são infinitamente maiores do que naquele tempo. Até porque, eles têm, ao seu dispor, o precioso recurso do livro eletrônico, possível de ser veiculado, divulgado e até vendido internet afora.

Maria Célia prossegue: “No campo da literatura, (as editoras) ocupavam-se apenas de autores consagrados, lançando poucos títulos, com tiragens que não ultrapassavam 500, 600 exemplares. A indústria editorial era tão incipiente que o produto importado dominava o comércio: em primeiro lugar vinha o livro francês, seguido pelo português, que aqui encontrou um mercado favorável a ponto de os editores portugueses incluírem autores brasileiros em suas publicações”.

Por tudo isso, chega a ser um milagre o fato da Literatura Brasileira ter produzido escritores geniais como Machado de Assis, Olavo Bilac, João Cruz e Sousa, José de Alencar e tantos e tantos e tantos nomes hoje consagrados. Eram, todavia, os melhores do seu tempo? Talvez nem fossem. Foram, pelo menos, os que tiveram oportunidade de publicar seus livros. E quantos não tiveram? Milhares, quem sabe milhões.

Volta e meia caem-me, nas mãos, originais manuscritos, de romancistas de primeiríssima linha, de poetas de um talento mágico, de extraordinários contistas do início do século XX – com o papel quase se desmanchando nas mãos de tão velho – que nunca puderam mostrar seus escritos ao público a que se destinava, a não ser nos restritíssimos círculos familiares. Escaparam da destruição por milagre. Mas permanecerão inéditos “ad aeternum”, porque as editoras atuais também têm um pé atrás em relação a escritores não consagrados.

E quem tinha acesso às editoras – e mesmo assim, para lançar incipientes edições de, no máximo, 600 exemplares? Monteiro Lobato, um dos mais ousados e honestos editores que este País já produziu (além dos seus reconhecidos e justamente louvados méritos de escritor), nos informa (em carta ao amigo Godofredo Rangel) quais eram esses privilegiados: “Naquele tempo, para alguém editar um livro, tinha que possuir uma destas qualidades: ser rico, ter prestígio junto a um medalhão, ou ser filho de pai ilustre”.

Quantos se enquadravam em alguma dessas categorias? Poucos, pouquíssimos, diria que meia dúzia de gatos pingados. E a maioria que teve seus livros editados, com base nesses pífios e medíocres critérios, caiu (como indica a lógica que deveria cair) no absoluto ostracismo, assim como os verdadeiros talentos, que sequer puderam passar nos arredores das raríssimas editoras nacionais então existentes. Somos ou não somos, pois, a grande pátria do desperdício?!

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk