sábado, 24 de junho de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, dois meses e vinte e oito dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Encontro conosco



Coluna Direto do Arquivo – Sérgio Vilas Boas, capítulo de romance. “Sujeito Zero (15)”.


Coluna Clássicos – Francesco Petrarca, poema, “Soneto XXII”.


Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “O Cinema Atlântico”.


Coluna Porta Aberta – Flora Figueiredo, poema, “Inverno”.


Coluna Porta Aberta – Adélia Prado, poema, “Humano”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Encontro conosco



É comum as pessoas acharem que a mera companhia de alguém é antídoto eficaz contra a solidão. Não é. Não raro nos sentimos mais solitários do que nunca em meio à multidão do que no isolamento do nosso quarto. Freqüentemente percebemos que estamos sós convivendo com quem nada nos acrescenta, que não nos dá ouvidos e sequer nota nossa presença. Parece um paradoxo, mas não é.

Muitas vezes nos sentimos mais bem acompanhados quando estamos conosco mesmos, sem ninguém por perto – lendo um bom livro, ouvindo alguma música que nos toque ou recordando bons momentos do passado – do que com quem nem mesmo percebe que existimos. Milhões de casamentos naufragaram, naufragam e vão fatalmente naufragar por causa disso. Bilhões de relacionamentos não prosperam por essa razão.

O que combate, de fato, a solidão, não é a companhia, a mera presença física. É o mútuo interesse das pessoas por gostos, alegrias, tristezas, sonhos e decepções umas das outras. Neste aspecto, as amizades (as autênticas, que promovem a comunhão de duas ou mais mentes) são sumamente preciosas e não raro mais bem-sucedidas do que relacionamentos amorosos assentados em bases frágeis, como a mera atração física. Os amigos impedem, sobretudo, que nos sintamos sós, quando não quisermos nos sentir.

Pitoresca (e com inegável fundo de verdade) é a observação feita pelo escritor francês, Hippolyte Adolphe Taine, num de seus ensaios, sobre os principais tipos de pessoas que compõem as sociedades. Claro que elas não se resumem, apenas, às modalidades que apontou. Taine escreveu: “A sociedade tem quatro variedades: os amantes, os ambiciosos, os observadores e os loucos. Estes são os mais felizes”.

Observe-se que a loucura a que se referiu é metafórica, não real. Os loucos, que Taine afirma serem mais felizes, não são, óbvio, os doentes mentais, mas os que aos olhos do mundo parecem viver fora da realidade. São os que encaram a vida com leveza, alegria e ternura, que não se preocupam com bens materiais, que sabem manter o bom humor nas circunstâncias mais desesperadoras e agudas e só veem beleza ao seu redor. Ou seja, são os que sabem viver.

Esses nunca sentem solidão. Têm o dom da empatia e sabem se tornar agradáveis, companheiros, cúmplices, íntimos. São constantemente requisitados, porquanto não temem abrir sua intimidade e conquistam nossa confiança para que nos abramos a eles. É dessa sublime loucura que quero ser tomado, para saborear o cálice da vida até a derradeira gota.

O escritor Octávio Paz abordou essa questão por um outro prisma. Escreveu, em um ensaio publicado nos anos 90: “É certo que a vida em comum ameaça sempre nossa identidade, mas a cidade, com suas multidões anônimas, também provoca o encontro com nós mesmos, e em certas ocasiões provoca, até mesmo, a revelação do que está mais além de nós”.

Já vivi, em inúmeras ocasiões, essa experiência e tive vários desses reencontros comigo na “solidão” das ruas movimentadas, em que as pessoas ao meu redor sequer pareciam reais, de carne e osso, mas meras sombras, simples silhuetas, de infinitas formas, tamanho era o mútuo alheamento. Eu não as percebia e elas não pareciam me notar.

Octávio Paz concluiu, a propósito: “Os antigos tinham visões nos desertos e nos páramos, nós no corredor de um edifício ou numa esquina qualquer. A poesia da cidade é simultaneamente a poesia da perda do ser e a poesia da plenitude”. Por mais estranho que pareça, o melhor lugar para nos encontrarmos a sós é nesse burburinho maluco das multidões anônimas.

É estranho, é verdade, e, sobretudo, contraditório, que neste momento, em que a espaçonave Terra conta com 7,6 bilhões de tripulantes, as pessoas se sintam tão solitárias. Não se trata, como se vê, de questão meramente quantitativa, de números. Nunca o ser humano sentiu-se tão só quanto agora. E, principalmente, no meio de multidões.

Os indivíduos fogem do diálogo, daquele íntimo, profundo, de coração aberto e com substância, escondidos em redomas de desconfiança e medo. Essa falta de interação, de troca de ideias constante e permanente, de conhecimento e reconhecimento do próximo, é que estimula preconceitos. Favorece injustiças. Fomenta ódios que explodem no hediondo exercício de matar.

Entre as circunstâncias que a vida nos impõe, uma das situações para as quais estamos menos preparados, convenhamos, é a de encarar a solidão – tema recorrente em minhas crônicas, poemas e contos, que nunca se esgota, pois sempre apresenta algum ângulo novo e original a ser analisado.

Algumas pessoas aproveitam quando estão sós para profunda reflexão. Para a tarefa – necessária, se não indispensável – do autoconhecimento, descobrindo o que são e como reagem face aos acontecimentos e às ações dos outros personagens do drama do cotidiano.

Outras, no entanto, encerram-se, de vez, em compartimentos estanques. Isolam-se, mais e mais, encarando o mundo com hostilidade e rancor. Com isso, só aprofundam a solidão, que poderia ser passageira se tivessem outra atitude. Para os que se doam, que face a elaapacidade de ministre e ivessem outra atitude estanques e isolam-se, mais e mais, encarando o mundo com hostilidadese comunicam e que aprendem a interagir, esse período de isolamento se torna até necessário, por se constituir em valiosa revisão de ideias, conceitos, sensações e emoções. Mas para os que não têm essa grandeza, essa capacidade, essa generosidade... Resta sofrer ad náusea com a irreparável solidão.



Boa leitura!



O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Sujeito Zero (15)


* Por Sergio Vilas Boas



Já bem tarde Alma teve fome. Colocou o discman sobre a cama; acendeu o abajur; apagou a nervosa lâmpada fluorescente tubular espiral; abriu até o fim a cortina do quarto; apanhou o menu-propaganda do restaurante que Quanaduck havia indicado, o do chinês que faz entregas a qualquer hora e sob qualquer condição atmosférica. Suspeitou que, àquela hora e naquelas circunstâncias, ninguém atenderia no 1-800 ou no outro número. Congelaram a normalidade também? Não.

Uma voz masculina respondeu em um inglês asiático. Alma pediu tofu com legumes, o mais possível de uma vegetariana heterodoxa suportar. A princípio, o sujeito não entende. Ela diz o número correspondente à opção do menu e ele respondeu “ouquê” – “ok”, Alma intuiu.

O atendente custou a compreender que o suco de laranja dela tinha de ser natural, sem açúcar ou outro aditivo. Ela não é o melhor exemplar da espécie denominada ecologicamente correta. Tampouco implica. Como integrava um amplo circuito de informações sobre pesquisas em mutagênese, conforme pude comprovar em www.unlimit.org, Alma se afirma capaz de distinguir a ciência séria da sensacionalista.

O chinês pediu trinta minutos de prazo para atender ao pedido. Bom demais para ser verdade. Ao estômago roncante, porém, ela enviou outra mensagem: a de que a comida, se viesse, levaria uma hora para chegar. Alma parece ter mania de se vacinar contra as decepções imaginando o pior. E se a comida não vier de jeito nenhum? Nessa hipótese melhor nem pensar. Ela é uma criatura muito, muito ansiosa.

Estranhamente – exceção para a noite, a neve e a oportunidade ímpar de lembrar, que ela assimilou com dificuldade –, tudo parecia um pesadelo. Alma arredou a poltrona para perto da janela e ficou olhando o lado de fora. Certamente, viu telhados cor de piche, brancas residências coloniais restauradas, chaminés que lembram Papai Noel, torres pontiagudas de igrejas presbiterianas e copas nuas de árvores centenárias iluminadas por refletores públicos turvos.

***

Para Alma, coincidência é uma palavra desprovida de mistérios, nada além da simultaneidade de duas ocorrências. Mas não deve ter sido o acaso que a estacou em Mystic. Ela pernoitou em uma região que Wapson conhece como a palma da mão, porque nasceu e se criou nela.

Mystic foi por várias gerações lar de marinheiros e pescadores impetuosos. Em 1776, às vésperas da revolução de independência dos EUA, a Coroa Britânica apelidou a vila de “maldito ninho de marimbondos nacionalistas”. Tem hoje menos que os 4 mil habitantes (dois mil na cidade, dois no campo – isso atualmente) da Carrancas de Seu Edmundo.

Em meados do século XIX, as ambições dos habitantes de Mystic giravam literalmente em torno das Américas. Fabricantes de embarcações lutavam para construir um navio capaz de circundar mais rápido o Cabo Horn, no extremo-sul da Argentina, e chegar a San Francisco, na Costa Oeste americana, onde o ouro abundava.

Hoje Mystic subsiste graças ao seu pequeno porto, ao turismo e à indústria naval de Groton, cidade vizinha, que produz submarinos nucleares. Por isso e por sua própria tradição, a vila possui um precioso acervo sobre a história marítima dos EUA, contada no museu Mystic Seaport, às margens de um rio que, naquela noite, estava perto de congelar.

O pai de Wapson, Frank Vogler, líder do Sindicato dos Trabalhadores da Marinha Mercante da Costa Nordeste, foi acusado de subversão pelos paranóicos seguidores de Joseph McCarthy, senador por Winsconsin. Vigiado e perseguido entre 1949 e 1955, Frank chegou a ser convidado a passar “uns anos longe da pátria”, mas resistiu. Em 1966, Frank, Martha e os filhos emigraram para o Brasil, por opção.

Exceto Wapson, o mais velho (então com 18 anos), que desbundava. Não trocaria a vida de hippie on the road por uma aventurazinha qualquer com familiares aos quais mal telefonava para desejar feliz natal. Seu projeto de futuro enfrentava três obstáculos: o pacifismo religioso dos bisavós; a moral hiperamericana dos avós; o socialismo consumista dos pais. Wapson tem muito a emprestar à geração de Alma. Ele é do tempo em que o “ser contra” era valorizado.


* Jornalista, escritor e professor. Editor do portal TextoVivo Narrativas da Vida Real (www.textovivo.com.br); vice-presidente da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL). Autor de Os Estrangeiros do Trem N (1997), Biografias & Biógrafos (2002) e Perfis (2003), entre outros. E-mail: svilasboas@textovivo.com.br.






Soneto XXII


* Por Francesco Petrarca


Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?
Se eu ardo por querer por que o lamento
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.
E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.
É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

in “Poemas de amor de Petrarca”

* Poeta clássico italiano, considerado o inventor do soneto.




O Cinema Atlântico


* Por Clóvis Campêlo

Quem, como eu, tenta se habilitar a ser um pesquisador ligeiro e pouco profundo, corre o risco de surpreender-se de forma negativa com a ausência de informações virtuais sobre o objeto pesquisado. Muito embora tenhamos hoje à nossa disposição um grande manancial de informações, seja no google, na wikipédia ou em diversos blogs e sites de pertinazes pesquisadores, em determinados momentos esbarramos na ausência quase total de dados e informações. Sinto isso aqui e agora, ao pesquisar sobre o extinto Cinema Atlântico, do Pina.

Do fundo da memória, extraio apenas que o cinema marcou a minha infância e adolescência, com os filmes fantásticos de Cantiflas, Hércules, Macistes; as chanchadas da Atlantida, com Oscarito, Grande Otelo, Ankito e vários outros; os filmes de Drácula, com Cristopher Lee, etc, etc, etc.

Na grande rede, encontro um quase nada de informações sobre o cinema. Apenas no site da Universidade Federal de Pernambuco, sob o título de “Conheça a história do Recife através dos seus teatros”, descubro o seguinte: “Teatro Barreto Júnior - Localizado no bairro do Pina, foi o primeiro teatro da Zona Sul da cidade, que recebeu o nome do ator José do Rego Barreto Júnior. O espaço é resquício do Cine Atlântico, que resistiu às demolições e fechamentos pelos quais passaram muitos cinemas do Recife no início da década de 80. A fachada ainda é a mesma de seu estilo original, preservado até 1985, quando foram iniciadas as obras de restauração”.

Nem mesmo no site da Fundaj, em um bom artigo escrito por Lúcia Gaspar sobre os cinemas antigos do Recife, encontro referência ao Cinema Atlântico do Pina.

Volto à memória e relembro que do final dos anos 50 até 1971, fiz do Cinema Atlântico o meu lugar preferido para a apreciação da chamada sétima arte, com a sua programação popular e voltada para o público da classe média e do povão, que predominava no bairro naquela época.

O cinema era localizado em um prédio simples, sem muito luxo, com entradas e bilheterias pela Rua Conselheiro Aguiar e saídas pela Rua Estudante Jeremias Bastos, antiga Travessa Herculano Bandeira. Aos domingos, antes das matinês, a criançada trocava gibis na calçada principal.

Durante um certo tempo, a segurança e o policiamento do local foram feitos pela Polícia Mirim, composta principalmente de jovens e adolescentes requisitados nas comunidades mais carentes do próprio bairro. Geralmente eram pessoas conhecidas e que participavam conosco das peladas na praia do Pina. Lembro especificamente de Pinduca, um desses policiais mirins que morava numa rua próxima à nossa. Era irmão de Jorge Gabiru, um cara bom de bola que chegou a se profissionalizar e jogar em Portugal. Ganhou dinheiro e gastou tudo. Hoje sobrevive como cambista nos estádios do Recife. Costumo sempre encontrá-lo, em dias de jogos do Santa Cruz, trabalhando no Estádio do Arruda. Pinduca, hoje já falecido, tinha o dom de escrever paródias picantes feitas em cima de grandes sucessos da MPB. Uma figura e tanto. Pois bem, aos domingos, durante as matinês no Cinema Atlântico, era comum vê-lo vestido com a sua farda verde oliva tentando por um pouco de ordem naquela bagunça juvenil, uma missão quase impossível.




* Poeta, jornalista e radialista.

Inverno


* Por Flora Figueiredo

O Inverno açoita lá fora.
É hora de acender o lume
e te dar meu colo, como de costume.
Deita teu sonho e enche tua taça
porque a noite cansa, a estrela passa
e a lua se apaga, morta de ciúme.


* Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto” e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia. Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são como um mergulho profundo nas águas da vida. 


Humano


* Por Adélia Prado


A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.



* Uma das maiores poetisas brasileiras da atualidade.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, dois meses e vinte e sete dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Miragem da eternidade

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “Ariano Suassuna, erudito e popular”.

Coluna Do real ao surrealEduardo Oliveira Freire, conto, “Terror”.

Coluna ClássicosBob Dylan, poema,Milhares”.

Coluna Porta AbertaAdailton Bastos, poema, “Sorriso voador”.

Coluna Porta Aberta – Alcides Buss, poema, “Em que parte do átomo nos perdemos”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Miragem da eternidade


A arte é, no final das contas, uma tentativa (na maioria das vezes bem-sucedida) de interpretação da vida, feita pelo artista. Tudo o que o cerca, animal, vegetal ou mineral não importa, é tema potencial para suas criações, temperado, claro, pelo seu talento, experiência e modos de enxergar as coisas.

Deleito-me, e aprendo muito mais sobre mim mesmo e o mundo, nas obras dos grandes criadores, do que na filosofia, nas ciências e em outras tantas disciplinas criadas pelo e para o homem. A natureza, se bem observada, é, por si só, inigualável obra de arte. Ás vezes é tétrica (e para o artista, há beleza, até, na extrema feiúra) às vezes sublime, dependendo do que se observa.

Mais do que agradar os sentidos, seu principal papel é induzir o observador à reflexão e à análise do que é e onde está. Ser artista, portanto, é enxergar o outro lado das coisas e se deleitar com ele. Procuramos a beleza em cenários sofisticados, em arranjos e combinações refinados e não atentamos para o tanto que há de belo ao nosso redor.

Não raro não conseguimos vislumbrar a poesia que há num bando de crianças sadias brincando despreocupadas, ou na limpidez do olhar da pessoa amada, ou nas flores selvagens e brutas que brotam por entre as ervas das campinas.

Desprezamos o simples. Somos obsessivos pelo complexo, pelo artificioso, pelo complicado. Mas a beleza real e hipnotizadora, aquela que nos enleva a alma e nos leva a esquecer as agruras da vida, está na simplicidade. Esconde-se nas coisas aparentemente mais triviais que nos rodeiam ou com as quais topamos casualmente.

Basta atentar para ela e, com a força do talento, criar poemas, romances, contos, pinturas, músicas etc. que se tornem imortais. Quando contemplamos, absortos e distraídos, um cenário deslumbrante, de extrema beleza – um sol dourado sobre um vasto trigal maduro; um lago de águas serenas e cristalinas cercado por um bosque verdejante; uma noite clara e enluarada com um céu salpicado de estrelas – sentimos uma ânsia indefinida, um desejo incontido de viajar pelo espaço e conhecer outros mundos e maravilhas interditas aos olhos humanos.

Sentimos que não somos daqui, deste lugar em que estamos, e que a vida não pode ser desperdiçada com picuinhas e ambições mesquinhas. Aflora em nós o artista que somos e que, às vezes, ou por timidez, ou por ignorância, ou em virtude das circunstâncias, ainda não descobrimos. Saber admirar o belo, e valorizá-lo, também é arte, posto que não se materialize em nenhuma obra.

O artista, sobretudo o escritor, como qualquer ser humano normal, com um mínimo de raciocínio, aspira à eternidade. Claro que tem consciência da impossibilidade física de chegar a ela. Busca-a, porém, através da sua obra. Se conseguirá ou não alcançar seu ousado objetivo, nunca saberá.

Para ter sucesso depende de circunstâncias várias que lhe fogem por completo ao controle. Não depende, sequer, da qualidade do que produziu. Inúmeras manifestações artísticas perderam-se para sempre, ao longo do tempo e da história, em decorrência de guerras, convulsões sociais, catástrofes etc.

Quanta coisa espetacular e original não se perdeu, por exemplo, no incêndio da Biblioteca de Alexandria, no Egito?! Ou na destruição da de Nínive! Ou por causas várias, nos mais variados tempos e lugares!

A obra de arte, objetivamente, não é eterna. Eterno é o dom artístico, a necessidade do homem de interpretar o que é, sente, faz e tudo o que o rodeia. É esse talento, que se manifesta das formas mais variáveis (literatura, pintura, música etc.) que confere ao artista uma espécie de “miragem de eternidade”.

Ela pode vir a se concretizar? Pode! Mas o que produziu pode, também, se perder para sempre e não deixar o menor vestígio em questão de parcos anos. O escritor Gaëtan Picon – autor, entre outros livros, de “O escritor e sua sombra” – escreveu a respeito: “A obra não é eterna, mas a continuidade da criação artística, que a submete ao jogo das revivescências e das metamorfoses, é como uma miragem de eternidade”. E não é?!

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ariano Suassuna, erudito e popular


* Por Urariano Mota


Há três anos, em um 24 de julho, assim falavam as notícias:

“O velório de Ariano Suassuna, realizado no Palácio do Campo das Princesas, no Centro do Recife, foi encerrado na tarde desta quinta-feira (24). Iniciado na noite anterior, ele ficou aberto durante toda a madrugada e recebeu grande número de parentes, amigos e fãs do escritor. 
Em cima do caixão, foram colocadas bandeiras do Sport, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do estado de Pernambuco e do Brasil. O enterro está previsto para acontecer no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, Grande Recife, por volta das 16h”.

Mas as notícias nada falavam do clima real, do povo real, no enterro de Ariano Suassuna. Eu estava na fila, do lado de fora do Palácio do Governo, à espera da ordem para que todos pudessem entrar em ordem até o caixão. Mas a fila não se movia. Nela, apenas se ouviam murmúrios de um povo que se conformou à fila de inúteis esperas, sob o sol ou sob a chuva como um destino. Na longa conformação as pessoas se lamentavam: “disseram que depois da missa a gente podia entrar. Mas já faz mais de hora que a missa acabou”. Eu olhava meu relógio, que parecia também ganhar a imobilidade da fila: 30 minutos, quarenta minutos... Juro que eu temia ouvir a qualquer momento um grito de lá da frente:
- O ingresso acabou!

E na minha frustração, me vi de volta para casa entre impotentes protestos, em voz baixa e educadas: “não deixaram o povo entrar”. Então eu fui até a frente da fila, me aproximei da grade de ferro que nos separava até do pátio da grande casa, e perguntei ao funcionário muito importante, pois metido ele estava num terno que é a farda dos áulicos.
- Por que demoram tanto a permitir a entrada?

Ele, como toda autoridade que se preza, pois os áulicos também se tornam autoridades por efeito de imantação e imitação, ele, o Superior, não me viu nem ouviu. Então eu ergui uma pouco a voz, até porque o de cima, por estar muito longe de mim, podia não ter me ouvido:
- Eu perguntei ao senhor por que o povo não pode entrar.

O grande desceu os olhos sobre mim, não tanto pela altura distinta, mas pela diagonal com que evitou o meu rosto e foi até o meu peito. Respondeu:
- Agora, só entra a família.  

Mas para desgraça da discriminação, ou para sua melhor prova, eis que se dirige ao obstáculo em forma de gente a então presidenta da Academia Pernambucana de Letras, escritora Fátima Quintas. Quase sem palavras, o emocionado funcionário lhe deu entrada. Mas não o fez por mal, considero agora. Pelos traços diáfanos do rosto pálido e modos gentis, só podia mesmo ser parenta de um ilustre. Engoli, com o intimo entrando em revolta. “Vá lá, foi uma exceção aberta para o cargo de presidenta da academia. Não podemos ser sectários”, me falo, com esforçada dialética. Mas ato contínuo, veio o mais grave. Eis que se apresenta uma senhora quase tão pálida quanto a anterior, mas com voz de mando e conhecedora do ambiente do palácio. Era Margarida Cantarelli, pessoa da confiança de Marco Maciel, e que no ano seguinte seria também presidenta da Academia Pernambucana de Letras. Que profecia do impedidor. Então este aqui, um jamais imortal, perguntou ao oficial general da proibição:
- Por que essa senhora entrou?

E o portão abusado:
- É família.

Eu lhe respondi:
- É não, senhor. Essa é Margarida Cantarelli, nada tem a ver com a família do Ariano. 

O comandante de ar-terra-e-mar sorriu da minha ignorância. Agora percebo a extensão do seu ar de mofa. O seu risinho  certamente queria dizer:
- Então você não sabe que quem manda é Pernambuco é família? Mandou, é parente. Foi parente, manda, não vê?.

Mas eu, crente de viver em uma república democrática, me enchi de indignação cívica. E falei para o marechal, pensando estar fortalecido pela massa excluída à minha volta:
- É um absurdo que no enterro de Ariano Suassuna o povo não possa entrar.

Ao que recebi o convite em fórmula corruptora:
-O senhor quer entrar? Entre!

E eu, amigos, falei num repente de cordel que nem mesmo imaginara:
- Não falo por mim. Eu não quero privilégio.

As pessoas concordavam, e o murmúrio foi crescendo. Então o comandante-da vedação recebeu a ajuda do seu chefe de um piso mais alto. Apareceu outro funcionário de terno e lhe falou:
- Já pode entrar. Libere.

Entramos. Mas lá dentro, houve outra decepção, porque se levantou mais um  impedimento. Nós não podíamos nos aproximar do corpo de Ariano Suassuna. Quero dizer, vê-lo de perto, tocar-lhe as flores, observar a curta distância a sua face de artista do povo.  Havia um retângulo de corda a nos separar dos restos mortais do  escritor. No espaço mais íntimo, vizinho ao corpo, se mostrava a família e quem mais fosse família em Pernambuco. Eram, para usar a imagem preferida do escritor, os dois Brasis. O oficial e o real. O oficial, resguardado, em sua nobreza e classe ao lado do caixão. O real estávamos em fila, a rodar, a circular, como numa fila de Tântalo. Queríamos estar juntos, mas nos afastávamos. Então embriagado de espírito democrático chamei a administradora daquela divisão, uma jovem uniformizada:
- Você não pode levantar esta corda?
- Não. Ali somente pode estar a família.
- Só a família? – respondi, olhando os grandes vultos da sociedade recifense
- E os amigos da família.
- Mas no enterro de Miguel Arraes não foi assim. Todo o mundo pôde chegar perto.

Ao meu lado, o cantor Santana do forró balançava o queixo em aprovação. Mas para evitar um pequeno escândalo em frente ao caixão, a jovem voltou com a lógica implacável dos servidores:
- Com Arraes, foi a família também que deixou. .

Mais tarde, soube que Germana Suassuna, neta do escritor, não aceitou aquela odiosa divisão. Emocionada, falou em discurso no cemitério: : 
- Dentro da corda, está o Brasil oficial. Mas meu avô gostava mesmo era do Brasil real, que está fora da corda..

Ela viu bem, estava certa. Então é para Ariano Suassuna, o escritor amante do Brasil real, que continuo estas linhas.

As intervenções, falas, entrevistas, aulas magistrais de Ariano Suassuna, eram e continuam a ser até hoje impagáveis na memória. Nele, se subverteu aquele princípio que rezava: os escritores são melhores quando lidos. Não. A sua fala, com expressiva eloquência e graça, rivalizava com a escrita. Não sei, não conheço outro caso de escritor, em todo o mundo, que chegasse perto de Ariano Suassuna quando falava em entrevistas ou nas suas imperdíveis aulas-espetáculo. Entendam, por favor, o que desejo expressar sem qualquer ufanismo. Não é que ele fosse o mais espirituoso da história ao falar. Ou possuísse os repentes geniais de Nelson Rodrigues, o teatrólogo que disputou com ele o prêmio de autor de obras-primas do teatro brasileiro. Em Nelson, o humor era outro, uma visceral corrosão cujo poder vinha do inesperado em palavras. Nem era tampouco que a ironia nele estivesse ao nível de Bernard Shaw e Mark Twain. Nesses, o embate mordaz era contra a desorganização social do moderno capitalismo.

Quando escrevo que não há outro escritor que se ponha na altura de Ariano Suassuna quando falava, quero dizer: esse paraibano do Recife era um ator de gênio ao enunciar o próprio pensamento. Mas isso é universal, poderiam dizer: Mark Twain, Nelson Rodrigues, Shaw e outros faziam gênero de personagem em suas palestras. Acontece que com o nosso escritor havia o palhaço – Ariano era um autêntico palhaço sem pintar visível a cara. Ele fazia mesmo palhaçadas de matar de rir, pelos tiques nervosos e recriações dos tipos humanos que conhecera na juventude e infância.  Olhem, por exemplo aqui, na sua entrevista a Jô Soares, ao relembrar Benedito Mucica

Mas nessa comédia viva há uma reflexão moral, já observamos. À sua maneira de palhaço, ele expressava atos de gente de cara e dente, ou seja, cumpria uma função do artista. Era do ofício. Em lugar de uma dissertação, uma ação. Em lugar de uma discussão filosófica, um movimento de gente. Gente com ideias, com conceitos, ainda que analfabeta, pasmem os equívocos. E mostrar gente sem instrução formal, expressando à sua maneira ideias civilizadas, vinha a ser escolha de só fio. Na fala de Ariano Suassuna havia a contradição do complexo, o pensamento mais elaborado, e da formulação desse complexo em língua que se ouvia na cozinha da nossa casa.

Dai que muitos o confundiam com o exterior de inculto do sertão nordestino. Risível engano. O quanto estamos acostumados com a pose, em prejuízo do que os olhos não veem. Eu confirmei a história que divulgo agora, vivida pelo poeta José Carlos Targino. 

Na aula de Estética, do curso de Letras da UFPE, quando Ariano Suassuna falava sobre o Dom Quixote, o poeta recifense que os amigos conhecem por Targino interrompeu o mestre. Com base na confiança que Ariano lhe concedia e a quem imitava a fala, na ausência de Ariano, Targino falou:
- Ariano, até hoje eu não levei adiante a leitura do Dom Quixote.

E Ariano:
- Por quê, Targino?
- É muito volumoso, professor, toma muito tempo....

E Ariano Suassuna:
- Targino, pelo amor de Deus, não faça uma desgraça dessas. Eu mesmo já li o Dom Quixote mais de 3 vezes.

“Então eu acabei lendo essa maravilha que é o romance do Cervantes”, me escreveu, por email, o poeta José Carlos Targino ainda ontem  E acrescentou na sua mensagem:
“Quando eu também disse a ele que não havia lido o monumental romance de Tolstoi, ele observou que havia lido onze vezes o Guerra e Paz!”

Eu próprio testemunhei a sua cultura, quando assisti a uma palestra em que ele mostrava os antecedentes literários do Dom Quixote a partir do livro Lazarillo de Tormes. E com uma graça que era inimiga do pedantismo. Nele, não havia a exibição de lombada, como algumas vezes se vê em Jorge Luis Borges. É que Ariano aprendera por ofício e natureza a arte de citar sem a citação entre aspas. Isso significa: a citação que era critação, porque leitura e vivência recriadas no próprio ser, que terminavam por fazer um novo autor. É ilustrativo disso o que lhe ocorreu depois do sucesso do Auto da Compadecida.

Contam que um crítico de teatro lhe perguntou certa vez de onde Ariano Suassuna havia tirado, para o Auto da Compadecida, as histórias do gato que descomia dinheiro, a história do testamento deixado pelo cachorro do padeiro e a  da gaita que ressuscitava defunto. Ariano respondeu que tudo ali havia sido retirado dos folhetos de cordel.  Ao que  perguntou o jornalista, à beira da indignação:
- Mas o que o senhor escreveu então?

Resposta do autor:
- Eu escrevi foi a peça.

Só a peça, que era tudo, e o crítico míope não sabia. Na formação cultural do escritor muito ele devia ao ambiente do tempo de ouro da cultura e política no Recife. Ele teve a sorte, única, de ser amigo de João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire e Capiba. Mas acima de tudo, de modo mais central, do escritor, teatrólogo, jornalista e agitador cultural Hermilo Borba Filho. Do seu encontro com Hermilo, ele falou uma vez:
“Encontramo-nos, pela primeira vez, quando entramos ambos para a Faculdade de Direito, no ano de 1946. Ali teria início, sob a liderança dele, o importante movimento do Teatro do Estudante de Pernambuco. Nós íamos para a faculdade pela manhã, mas a universidade onde realmente se fazia a nossa verdadeira formação era a casa de Hermilo, na Rua do Capim, casa onde, à noite, nos reuníamos até altas horas, conversando, concordando e discordando, brigando e ensinando. Hermilo, que acreditava demais em mim, metia-me na mão, quase à força, os livros que achava que ajudariam na minha caminhada. Foi ele quem praticamente me intimou a escrever a primeira peça de teatro”

A maioria das pessoas não sabe, mas na peça que lhe trouxe a consagração universal, ele não devia só à leitura dos folhetos de cordel e o ao natural talento. Sobre isso, o  ator Carlos Reis, que interpretou Jesus Cristo na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, de 1969 a 1977, me prestou esta preciosa informação:
“O cenário da abertura da peça como um picadeiro de circo, assim como o palhaço que anuncia o espetáculo por vir, foram sugestões de Clênio Wanderley, o diretor que estreou o Auto da Compadecida em 11 de setembro de 1956, no Teatro de Santa Isabel. As ideias sugeridas por Clênio Wanderley foram incorporadas por Ariano Suassuna no texto da peça.  Houve ainda outras ideias de Clênio acatadas por Ariano, como se mostram na primeira edição em livro do Auto da Compadecida, e que foram informadas pelo próprio Ariano Suassuna no texto”.  

Prova de grandeza o agradecimento público do autor. Mas o fato é que a peça terminou por ser, de certa maneira, a vitória de um trabalho coletivo, guiado e composto pela obra de Ariano Suassuna. Ele “só” fez escrever a peça. Os elementos estavam diluídos na atmosfera, até que o seu gênio os organizasse em um corpo dramático.

Penso, por fim, que as intervenções de Ariano Sussuna como escritor educador, nas entrevistas e aulas-espetáculo, de um ponto de vista político eram um Shaw e Twain contidos, nos limites da convivência dos governantes da província. Daí que o poder político retira dele até hoje uma parte do todo, sintetizando-o no quadro de um “defensor da causa nordestina”. E por “causa nordestina” muitas vezes querem dizer: a raiz, o autêntico homem do sertão, em caminho até o primitivo original, quase como um adão de tempos medievais. O que o próprio Ariano Suassuna aqui e ali fazia bandeira. É claro que é um equívoco, para dizer o mínimo. Cultura de raiz é sempre cultura de misturada, de outras terras, fora da raiz primeira. É como se Ariano Suassuna se tornasse o ideólogo da vaquejada. Mas o seu alcance é outro e mais longínquo: ele era um artista, um cultor da estética teórica e prática, um homem que falava para o mundo a partir da sua aldeia. E ganhou o prêmio de ser visto como um homem de todas as aldeias. O nosso universal popular. Um nacionalista que gozava com a cara da burguesia cuja maior cultura era ter conhecido Disney World. Ou como declarou uma vez e para sempre:     
“Quem um dia ler o Auto da Compadecida, vai saber que eu estou do lado de João Grilo e de Chicó, os dois personagens que representam o povo do Brasil Real”.

Este é, enfim, o Ariano Suassuna que guardamos.


*Publicado, originalmente, no Vermelho 


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros