sábado, 21 de janeiro de 2012







Milina e Turco

* Por Raul Pompéia

I
E
stava a tarde feia, úmida, aborrecida.
Quem entrava, trazia os pés molhados; quem saia levava a certeza de se encharcar à porta. Dentro em pouco devia anoitecer. O sol caíra para lá das casas que fechavam a boca da rua ao ocidente...
Na estalagem, os quartos estavam já escuros, e esta escuridão vinha contaminando pouco a pouco o palco central, onde se amontoavam as tinas de lavagem e a roupa suja que ficara esquecida.
Emília, a pequenina Emília, com um saiote curto, que lhe deixava descobertos os joelhos, estava assentada na porta de um quartinho estreito e imundo. Aproveitava o luar do lusco-fusco para pegar na boneca. A pobre criança com os seus seis anos só trabalhava dia e noite. Feliz noite para ela, o lusco-fusco não é dia, nem é noite. A sua faina arrefecia naquela hora.
A boneca...
Digamos que boneca era: um saquinho de chita sem cor própria, cheio de trapos, comprido e apertado em uma das pontas por um cordão. Este cordão era a graça daquele miserável brinco. Representava de pescoço; era a beleza plástica forjada pela pobre imaginação de Emília para a sua Milina.
A boneca, ou antes Milina, caíra numa poça d'água e estava pingando...
A pequena, com o seu rostinho meigo e contristado, acariciava-a. Quem a visse teria pena.
- Emília! Emília! gritou uma voz arrotada.
A voz gritava de dentro do quarto. Lá na sombra entrevia-se o vulto de uma mulher espichada no chão sobre um monte de panos escuros e imundos, cheirando a vinho.


II
Emília, descalça, saiu da estalagem, correndo, com um regador amarrotado e ferrugento. Era tão grande para ela o regador que ia roçando pelos lajedos. Ia buscar água para a pocilga da senhora que a protegia.
E Milina?... Pobre Milina! Emília havia de lhe pedir perdão por tê-la deixado só, naquela hora que era a única em que a coitada dormia no colo de mamãe...



III
Um belo cão negro enfeitado de bastos pêlos reluzentes, orgulhoso em extremo, espécie de cão fidalgo, entrou pelo cortiço, com a cauda enroscada em penacho e as orelhas erguidas. Logo depois voltou, atirando ao ar as grandes patas, saltando alegre. De vez em quando, sacudia o focinho e via-se alguma coisa a balançar pendente. A pouca distância, o dono do cão, o filho do sr. Visconde, pequenote de calças curtas ainda, e já pelintra, soltava largas risadas, batendo com o pezinho bem calçado na soleira de mármore do palacete da família. Com um chicotinho fino fustigava o ar e ria-se... ria-se...



IV
Emília vinha da bica da esquina, arrastando o regador cheio a transbordar.
Aquele cachorro!...
Ao chegar à porta da estalagem viu o cão.
O animal galopava para o palacete e levava Milina nos dentes.
Emília fora de si atirou o regador, que tombou na sarjeta e voou sobre o animal...



V
O filho do Visconde tomou-lhe a frente continuando a rir-se da brincadeira do seu Turco.
- Mau! menino mau! gritou Emília, avançando para o pequeno.
O chicotinho zuniu três vezes...
Emília recuou, e levou as mãozinhas aos seus olhos tão belos e tão bons, soltando um longo:
-Ai!
Foi pungente.
Emília estava cega.

• Contista, cronista e romancista

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