domingo, 27 de março de 2011



Alguém há de ser o culpado


* Por Daniel Santos


Acordei no domingo com a sensação de ter todo o tempo só para mim mas, em vez de desfrutá-lo, resolvi fazer algo de útil para a família – nada que exigisse grandes habilidades e, de quebra, me rendesse elogios. Assim, enquanto as crianças brincavam no vizinho e a esposa cumulava-se de compras para preparar um almoço daqueles, fui à lojinha do final da rua comprar tinta e pincéis: pretendia pintar o muro da casa. Respingado de lama e com marcas de bolas de futebol, ele dava ao imóvel um aspecto decadente, como se todos nós fôssemos um bando de desleixados, uma gente que não cuidava sequer do próprio patrimônio. Para minha surpresa, a costumeira preguiça da manhã de domingo cedeu a um entusiasmo cheio de vigor e, em um par de horas, terminava o serviço antes de a família regressar a casa pouquinho antes do meio-dia. A admiração foi geral e, em parte por causa da nova pintura, em parte porque o salmão com molho de alcaparras era de converter qualquer ateu, almoçamos com gula sem culpas e também com muita alegria. Depois, a sobremesa, o cafezinho e um desses filmes bobos que a tevê costuma exibir. Mas lá pelas tantas, a meio da tarde, dei uma escapulida até a rua para observar de novo o muro caiado de branco. De dentro da casa, a família ouviu meu berro de revolta: alguém, um espírito-de-porco qualquer, um canalha sem eira nem beira, um pichador com mãe de péssima fama destruíra minha obra-prima! De um lado a outro do muro, rabiscos grosseiros em tinta negra tornavam irreconhecível todo o trabalho que me ocupara naquela manhã e que eu realizara com a maior das boas intenções. Tudo perdido! Mas, não. Aquele domingo não poderia terminar assim de maneira tão melancólica. Precisava reagir. Por isso, não pensei duas vezes e refiz todo o serviço, enquanto inquiria a vizinhança sobre o vândalo. Ninguém sabia de nada, ninguém avistara esse sujeito mesquinho cuja identidade acabaria por descobrir – uma promessa que fazia a mim mesmo porque, se não reagimos a tempo, perdemos a autoridade. Terminada a repintura, não entrei em casa e me escondi atrás de um arbusto do jardim, a ver se flagrava o ordinário com sua lata de spray, mas já no fim da tarde tive de abandonar a vigília para atender o telefone. Foram apenas dois minutos de desatenção, e quando voltei ... Quando voltei, o sabotador agira novamente! Vociferei, praguejei e rosnei como numa sessão de baixo espiritismo, em pleno surto de fúria. Era guerra? Se era guerra, o canalha ia se ver comigo. Pintei o muro pela terceira vez, voltei a me esconder no arbusto, mas a noite caía já com a suavidade de uma estola de musseline e tive de entrar para a janta. Mastigava com mandíbulas tensas. A rigor, não mastigava: mordia a comida, tamanha a necessidade de revanche. E quase terminava de comer, quando ouvi o chiado já, digamos, familiar da lata de spray. Larguei tudo e corri à rua com disposição homicida, mas não havia ninguém à vista. Ninguém, exceto um cachorrinho preto e branco, um desses amorosos vira-latas que costumam abanar o rabo para todos. Mas esse não era assim. Adivinhei na sua expressão um sorriso algo irônico. Irônico, não; um sorriso de escárnio, de uma desfaçatez sem limites. E, apesar do absurdo da situação, entendi: era ele, era ele! Tentei me aproximar com vagar e cautela, mas o dito, esperto como quê, recuou igualmente a passos lentos. Aumentei o ritmo e ele também se apressou. Corri, então, e ele se abalou numa disparada inalcançável. Atirei-lhe paus e pedras, mas o canalha desvencilhava-se, enquanto olhava para trás a ver se o alcançava, sem desfazer aquele sorrisinho de ironia. E, assim, um atrás do outro, nos perdemos noite adentro.


* Jornalista carioca, 54 anos. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.

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