terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, nove meses e dezenove dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Plenitude e exatidão.

Coluna Á flor da peleEvelyne Furtado, crônica, “Carpe Diem.

Coluna Observações e reminiscênciasJosé Calvino de Andrade Lima, crônica, “Filme chamado Brasil”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, crônica, “Orlando de Virgínia Woolf”.

Coluna Porta AbertaEmanuel Medeiros Vieira, crônica,Mãos e mundo”.

Coluna Porta Aberta – Frei Betto, artigo, “Temer agrava crise social”.


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CITAÇÃO DO DIA:

Frustrações e violência 

As frustrações da sociedade de consumo tornam o consumidor cada vez mais violento. A tal ponto, que a violência já atingiu a classe média, as crianças e até os governos.

(Daniel Caisse, sociólogo francês).


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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Plenitude e exatidão


O que é mais importante para as pessoas, para que se comuniquem com correção e objetividade e se façam entendidas no que gostem e desgostem, sintam e pensem, queiram e sonhem: a leitura, a correta expressão oral ou a escrita? Obviamente que o ideal seria contar com as três habilidades simultaneamente. Isso é o que, de uma forma ou de outra, consciente ou inconsciente, todos buscamos vida afora.

Todavia, se você tivesse que escolher uma dessas aptidões, uma única, qual delas escolheria? Optaria por ler com plena capacidade de entendimento, mesmo que os textos que lesse fossem confusos, cifrados ou eruditos demais? Escolheria a exposição oral, que tem a vantagem das expressões faciais, do timbre de voz, do brilho nos olhos, do sorriso tranquilizador etc. como elementos sobressalentes da comunicação? Ou optaria por escrever com correção, criatividade, clareza e objetividade? Eu optaria (embora seja suspeito para opinar a respeito), pela última alternativa.

E o por quê dessa escolha? Porque pressuporia ter o domínio das outras duas habilidades, automaticamente. Para escrever com correção e conteúdo, eu teria que ser, no mínimo, bom leitor. A prática comprovou-me que só escreve bem quem lê bastante, com assiduidade e concentração, desde os gibis aos clássicos.

Ademais, se sou capaz de expressar-me com clareza e exatidão por escrito, muito mais fácil será, para mim, fazê-lo oralmente. A aptidão de escrever, portanto, é muito importante não apenas para o profissional do texto (para este, é crucial), mas para todo e qualquer indivíduo.

Muita gente não se preocupa com isso. Conheço profissionais ultra preparados tecnicamente em suas atividades, com vários diplomas de graduação, pós-graduação e doutorado, que têm dificuldades de escrever um reles bilhete para a esposa (ou para a empregada) sem deixar dúvidas quanto ao recado que pretendia passar. A todo o momento, topo com textos em que o autor tem o que dizer, mas não sabe como fazê-lo e se enrola todo, não raro vomitando uma erudição que de fato nem mesmo tem. É importante escrever bem. Dá segurança, confiança e credibilidade a quem sabe fazê-lo.

Reitero quantas vezes se fizer necessário que não desprezo as outras formas de comunicação (e nem seria imbecil de fazê-lo). Quem me acompanha há já bastante tempo em minhas atividades de comunicador sabe da minha obsessão pela leitura. A todo o momento, escrevo sobre a necessidade da disseminação, cada vez mais ampla e até universal, dessa indispensável prática.

Faço dos versos mágicos de Castro Alves, no poema “O livro e a América”, que dizem “ó bendito o que semeia/livros, livros à mancheia/e manda o povo pensar./E o livro, caindo na alma/é germe que faz a palma/é chuva que faz o mar”, uma espécie de mantra, um dístico, uma oração, um lema que tento seguir.

Saber ler, adquirir o gosto pela leitura e poder fazê-lo com constância e assiduidade, todos os dias, é, para mim, um dos direitos fundamentais do homem. Conscientizar o máximo de pessoas a esse respeito tornou-se-me missão de vida. Tenho orgulho, por exemplo, de ter contribuído para a alfabetização de uma dezena de indivíduos e esse é o maior feito que já consegui desde que me conheço por gente.

Por outro lado, a comunicação oral tem importância até histórica em minha trajetória profissional. Afinal, dei meus primeiros passos neste mundo fascinante das comunicações no rádio, como produtor e simultaneamente locutor. Sou conferencista, com mais de 400 palestras e conferências no currículo.

Sei do desafio que é o de prender a atenção de uma plateia, de algumas centenas de pessoas, fazendo com que todas entendam as mensagens que tenho para transmitir, sem ambiguidades ou dubiedades. Ademais, essa foi a primeira forma que Homo Sapiens desenvolveu para se comunicar com outros espécimes da sua espécie. Todas as outras brotaram, floresceram e frutificaram dessa fértil semente, gerando a frondosa árvore de todo conhecimento humano.

Mas a escrita... Que coisa engenhosa foi essa criação, à qual raramente damos o devido valor, mas sem a qual o homem, certamente, ainda seria fera rústica e bronca, habitando as cavernas primitivas e sem possibilidades de passar conhecimentos, descobertas e habilidades às gerações posteriores! Os mais geniais, tão logo morressem, levariam para o túmulo tudo o que houvessem aprendido, intuído, criado ou pensado. A escrita impede que isso ocorra e, dessa forma, impulsiona o progresso e a civilização.
Poderia, no entanto, resumir todo esse meu bla-bla-blá em uma curta, objetiva e direta definição, como esta, feita pelo filósofo Francis Bacon, que escreveu a propósito: “A leitura traz ao homem plenitude, o discurso segurança e a escrita exatidão”.. Viram? Simples, direto, claro e objetivo.

Já imaginaram se Bacon não soubesse escrever? Estaríamos privados dessa sua singela, porém ao mesmo tempo profunda constatação. Daí a minha opção irrevogável pela escrita (entre tantos outros e infindáveis motivos).


Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Carpe Diem


* Por Evelyne Furtado



Ainda sofro com fugacidade da vida. Das coisas boas, claro. A agonia é inevitável quando insisto em reter o bom comigo. É como desejar que a lua esteja sempre a banhar de luz o escuro da noite. É como não querer acordar de um sonho bom. Ou, ainda, segurar a felicidade quando esta escapa das minhas mãos e já me faz sofrer. Em cada perda significativa, sinto como se o mundo acabasse ali. Visto luto e pranteio por um bom tempo o fim de um projeto, por exemplo. Uma parte de mim vai com ele.

A percepção do membro perdido é assustadora. Como viver desintegrada daquilo que foi importante para mim? Por uns dias só há choro, raiva, desilusão. Depois vem a aceitação e a constatação de que é possível reescrever o roteiro de minha vida. A princípio, sem grandes pretensões. Um pequeno script pode fazer um bem enorme. É hora de soltar as amarras com o passado. Lembrar, sim, mas desde que a lembrança não signifique dor ou mágoa.

A vida é por si fugaz. Porque não o amor? O amor tem começo e fim. A gente vive bons momentos e sonha junto um mesmo sonho. Um dia essa comunhão finda. Não se tem mais a presença do outro, nem compartilha mais o mesmo sonho. A cobrança dá lugar às promessas. O amor, antes um bálsamo, torna-se a própria dor.

É hora de encerrar o pacto amoroso. Melhor mantê-lo na memória como algo especial vivido a dois. Há amores "que têm que morrer para germinar", como canta Gil, em sua belíssima canção.

Fecha-se um ciclo. Distancia-se daquele projeto de vida cultivado por um período. Passa-se a viver do que a vida nos oferece. Viver, segundo Horácio, grande poeta latino, que diante da brevidade da vida, aconselhou assim, um amigo em uma Ode: "seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo, refaça suas esperanças..." e completa "Colha o dia, confia o mínimo no amanhã".

Portanto, o fruto maduro deve ser degustado hoje, amanhã ele estará apodrecido.

Vivo meu momento Carpe Diem e vou tentar me manter assim.


* Poetisa, cronista e psicóloga de Natal/RN.





Filme chamado Brasil



*Por José Calvino



Sabendo que existem pessoas que gostam de ler, faço cá as minhas escritas com observações sobre o comportamento do nosso povo. Perante a lei, ao menos, todos nós somos iguais, mas será? Não acredito que no nosso Brasil se tenha uma educação básica que nos prepare para vivermos felizes da vida. Observo sempre que a maioria dos que nascem neste país não tem preparo para viver dignamente, e não tem sequer o primário. Continuo dizendo que a culpa é do governo. Por que, do contrário, será que os meninos e meninas têm culpa? Claro que não.

Pergunto a mim mesmo até quando assistiremos a esse filme chamado Brasil? Será que tenho esta percepção mais extraordinária do que a maioria da população? Penso que não devo deixar de escrever denunciando as injustiças sociais e responsabilizar os governos federal, estadual e municipal. Com esses embaraços não venham me dizer que não foram eles que ensinaram o povo a mania de freqüentar as igrejas com confissões, esmolas pelo amor de Deus, com orações dirigidas a Deus ou a um santo, pedindo ajuda ou auxílio para as pessoas necessitadas, embora até hoje isso não tenha adiantado nada. Os políticos, por sua vez, nunca mostraram interesse para sanar, por exemplo, o sofrimento dos sertanejos e o que eu vejo é muita politicagem para tirar proveito da situação critica em que encontram esses povos. Digo o mesmo com relação à importância que se aprendeu a dar ao futebol. A Copa do Mundo vem aí, mas será que o povo não ficará eufórico demais ao ponto de esquecer do mundo? Quem não se lembra quando os militares estavam no poder nos anos 70 e ganhamos a Copa do Mundo e eles pintaram o sete sem que o povo, em festa, nada percebesse?

Enfim, termino esta crônica com a poesia intitulada “Filme chamado Brasil”:


Estamos assistindo esse filme
Chamado Brasil!
Todos nós sempre temos dito:
Esse filme já passou”
Já dizia Machado de Assis:
A hipocrisia é a solda que une a sociedade”.
Quem nos ensinou viver assim?
No despertar de um novo horizonte…
Qual de nós sentirá recordação?
Será difícil reverter esse quadro!!!
Como diz Chico Buarque:
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser da outra”.
Fora à mediocridade
Viva o Brasil!

Nota – “Filme chamado Brasil”, extraído do livro:“Miscelânea Recife II”, p.33- ed. esgotada.


*Escritor pernambucano.




Orlando de Virgínia Woolf


* Por Eduardo Oliveira Freire


O que faria se fosse dormir homem e acordasse mulher ou vice-versa? Teria medo? Aproveitaria para explorar seu novo corpo? Encararia como uma travessia para o autoconhecimento?

No romance, Virgínia Woolf narra a história inusitada de Orlando, um homem que acorda mulher um dia. A partir desta transformação, o(a) personagem encontra sua individualidade, livrando-se das máscaras sociais as quais sufocam o verdadeiro eu. Ao decorrer da história, deixa de ser um mimado nobre e vai se transformando, através dos séculos, em um indivíduo mais completo.

A história reflete sobre os arquétipos masculinos e femininos, como, por exemplo, o homem pertence aos status e à tradição, enquanto a mulher, à natureza.

Faz pensar que independente dos gêneros, podemos viver na autenticidade e não ficarmos nas convenções sociais seculares.

A narrativa é bem acessível, a narradora desenvolve como se fosse uma biografia de Orlando. Há passagens irônicas que de alguma forma questionam certos comportamentos em regras sociais.


* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/





Mãos e mundo


* Por Emanuel Medeiros Vieira


A causa fundamental dos problemas no mundo é que os estúpidos são cheios de certezas enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas”. Carl Gustava Jung (1875-1961)

Aquelas mãos tão inquietas antes inertes agora cruzadas (o cheiro de flor e vela). Para onde iremos? A pergunta é inútil: nunca saberemos.

Festas, carnavais, delírios, drogas (e violência, autofagia, crueldade, medo). Depois, todos irão embora, ele ficará lá debaixo dos sete palmos.

E muitos pensarão: “Credo, final de ano e ele gosta de escrever coisas tristes, pessimistas”. O bom da idade é que não mais nos importamos com os juízos alheios e com a ignorância deslumbrada.

Somos poucos? Somos. Tantos cantores sertanejos, tanto funk – para que se preocupar, afora a Annita...” E as mãos estarão para sempre quietas – sempre.

(Salvador, 30 de dezembro de 2017)

* Romancista, contista, novelista e poeta catarinense, residente em Brasília, autor de livros como “Olhos azuis – ao sul do efêmero”, “Cerrado desterro”, “Meus mortos caminham comigo nos domingos de verão”, “Metônia” e “O homem que não amava simpósios”, entre outros.


Temer agrava crise social


* Por Frei Betto


Depois de uma década em queda, a pobreza se ampliou no país desde a recessão iniciada em 2014. De acordo com levantamento do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), pouco mais de 9 milhões de brasileiros foram empurrados para baixo da linha de pobreza em 2015 e 2016, reflexo da deterioração do emprego e da renda. Desses, 5,4 milhões tornaram-se extremamente pobres (ou miseráveis).

São dados da “Síntese de Indicadores Sociais”, divulgada em dezembro pelo IBGE. De acordo com o Banco Mundial e o IBGE, vive na extrema pobreza quem ganha US$ 1,90 por dia (R$ 133,72 mensais); e na pobreza moderada quem recebe US$ 5,50 por dia (R$ 387,07 mensais).

Em 2016, 52,2 milhões de brasileiros(as) viviam abaixo da linha de pobreza, ou 25,4% da população. No caso da pobreza extrema, eram 13,35 milhões de pessoas, 6,5% da população.

Pelos cálculos do Iets, de 2004 a 2014 o Brasil retirou quase 40 milhões de pessoas da pobreza. Nem mesmo a crise mundial de 2008, que provocou pequena e rápida recessão no país, foi capaz de interromper o processo de redução da pobreza. “O retrocesso ocorre de 2014 para 2015. É quando a crise [brasileira] começa a afetar a renda, provocar desemprego e gerar informalidade. Os empregos perdidos na construção civil, por exemplo, afetaram muitos trabalhadores”, disse o pesquisador do Iets.

Francisco Ferreira, economista do Banco Mundial, chegou a conclusões parecidas. A parcela da população em situação de extrema pobreza cresceu de 4,1%, em 2014, para 6,5% em 2016. Em entrevista ao jornal Valor, José Graziano, diretor-geral da FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura, declarou que mais de 7 milhões de brasileiros, mesmo vivendo em situação de extrema pobreza, não recebem nenhum tipo de assistência social. O país, advertiu, pode voltar a integrar o Mapa da Fome Mundial, que a FAO divulga desde 1990.

Em nosso país, todo dia são jogados no lixo 41 mil toneladas de alimentos, suficientes para alimentar 25 milhões de pessoas! Um quarto desse desperdício é culpa do consumidor final. Por isso, é tão baixo o índice de reaproveitamento feito pelos bancos de alimentos: apenas 150 toneladas por mês.

Nossas escolas insistem em ignorar a educação nutricional, e o governo não delimita a propaganda e venda de produtos que prejudicam a saúde, em especial a das crianças. A morte não está embutida apenas em maços de cigarros. Também em refrigerantes, achocolatados, enlatados e embutidos. Sutil, ela se inicia por nos corroer por dentro, na forma de perda de vitaminas, obesidade mórbida, debilitação dos ossos, câncer etc.

No mundo, a FAO calcula que, todos os dias, 1/3 dos alimentos vai para o lixo, o que equivale a 3,5 milhões de toneladas.

Esses dados devem pesar, neste ano de 2018, em nossa consciência de eleitores.


* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.