quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, sete meses e vinte e cinco dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Leitura e absorção.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “Eu tenho diabetes”.

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “A rosa e o sorvete, ê João”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Tanto faz”.

Coluna Porta Aberta – Adelcir Oliveira, crônica, “Rumo a 2018”.

Coluna Porta Aberta – Adão Ventura, poema, “Agora”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação. 
Leitura e absorção


Absorvemos muito pouco do conteúdo de um texto se o lermos sem método, mesmo que nos concentremos ao máximo no que estivermos fazendo. Querem uma prova? Façam o teste. Releiam um livro, qualquer um, que vocês tenham lido, digamos, há dez anos, sem fazer anotações à margem e muito menos ficha de leitura. Qual o resultado? Ele lhes parecerá inédito. Apenas um trecho ou outro lhes soará como vagamente familiar. Não precisam acreditar em mim. Façam vocês mesmos a experiência.

Pior será se o conteúdo contiver ideias que divirjam das suas. Aí vocês não absorverão absolutamente nada mesmo. Por isso, não exagerei quando publiquei, recentemente, uma crônica em que defendo a tese de que “leitura é um ato de fé” (que tem, propositalmente, este título). Você tem que acreditar no autor para ler o livro até o fim. E, principalmente, para fazer a leitura de outras obras que ele tenha escrito.

Lemos, basicamente, por três motivos. O primeiro como uma forma de lazer (e para mim não há nenhuma outra que se lhe compare sequer de longe). Para tanto, escolhemos leitura amena, que não nos exija muito raciocínio, como um romance de aventura, por exemplo, ou um conto policial ou alguma novela de amor.

O segundo motivo que nos leva a ler é o desejo de enriquecimento intelectual e, sobretudo, espiritual. É a busca por beleza e transcendência. É o confronto de ideias que nos induz à reflexão e a descobertas tanto do mundo que nos cerca e das multidões que o habitam, quanto de nós mesmos. Aliás, esta última descoberta pode ser compensadora ou traumática, dependendo de como somos de fato.

Pablo Neruda advertiu a propósito: “Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas”. E pode mesmo.

Neste caso, quando a leitura se destina ao enriquecimento intelectual, espiritual e, não raro, moral, quanto mais método tivermos, melhor proveito tiraremos do que viermos a ler. É aqui que entra a questão da “fé” no autor.

E, finalmente, lemos exclusivamente para aprender. Para tanto recorremos aos livros didáticos e paradidáticos. Aqui, se nos limitarmos apenas à leitura, sem um estudo metódico, acurado e atencioso, não aprenderemos coisíssima alguma. Seremos reprovados na escola ou na faculdade e perderemos tempo, dinheiro e, pior, oportunidades de crescimento profissional na vida.

Comportamento pitoresco, referente à leitura, para o qual eu não havia atinado, levantado pelo escritor austríaco Robert Musil, em seu livro “Homem sem qualidades”, é o fato de suprimirmos, automática e subconscientemente do texto que estivermos lendo o que não nos convém.

Fiz o teste e constatei que esse autor tem razão. Ele afirma, em determinado trecho: “O que você faz quando lê? Vou dar-lhe já a resposta: a sua leitura deixa de lado o que não lhe convém. O mesmo já fez o autor antes. Omitem-se também coisas nos sonhos e na imaginação. Daqui concluo: a beleza ou a excitação aparecem no mundo por omissão”.

Curiosa essa observação, posto que, no meu entender, verdadeira. Espero, pois, não ter escrito, nestas considerações de hoje, nada que não lhe convenha. E que, sobretudo, você deposite “fé” no que escrevo e não fuja nunca dos meus textos, por mais extensos e aparentemente complexos que sejam.

A leitura de determinados livros deve ser feita, como destaquei, sempre com método e organização, para que se aproveite o melhor do seu conteúdo, sua essência, a mensagem que o autor pretendeu passar e que motivou sua redação e publicação. Nem toda obra pode ser lida da mesma forma, com a atenção concentrada apenas no enredo, sem se atentar para nuances e sutilezas.

Por exemplo, não se pode ler um ensaio da mesma forma que se lê um romance. Esse gênero, por si só, já sugere reflexões, ideias, informações que, se bem aproveitadas, tendem a nos ser úteis não apenas em nossa atividade, mas, sobretudo, em nossa vida. O mesmo ocorre com um livro de poesias.

Poemas precisam ser “sentidos”, para serem valorizados, e não podem e nem devem ser lidos às pressas, sob pena de deixarmos escapar o que têm de melhor e, dessa forma, não fazermos justiça ao autor.

Mesmo alguns romances têm conteúdo que vai muito além do mero enredo, da ação, daquilo que o leitor desavisado entende que seja a sua essência. Muitos deles trazem citações fantásticas, que nos podem ser sumamente úteis em vários sentidos.

Ao ler um livro, com as características que destaquei, convém ter à mão uma caneta e um bloco de anotações (de preferência uma agenda destinada a esse fim). Anote, meticulosamente, as coisas interessantes que encontrar. Verá que seu proveito dessa leitura será muito maior do que se você se limitasse a fazê-la de um só “sopro”, sem interrupções.

Alguns costumam grifar o que lhes interessa no próprio livro e fazer anotações à margem. Também vale. Todavia, recomenda-se, como mais adequadas, as anotações em papéis à parte. Afinal, todas as vezes que você copia um texto, mesmo que não se aperceba, o memoriza, se não na totalidade, pelo menos em boa parte dele. Pense nisso.

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu tenho diabetes


* Por Mara Narciso
 
Desde menina, e isso teve importância na minha escolha profissional, minha mãe Milena me contava das dificuldades pelas quais passava uma colega, diabética (como se dizia até outro dia) desde os 11 anos de idade. Seu diagnóstico foi em 1945, apenas 23 anos após a descoberta da insulina. A menina precisava tomar uma injeção de insulina todos os dias, e sua vida dependia desse medicamento. Na hora do recreio, uma moça trazia a merenda, um copo de leite, duas pedrinhas de sacarina e uma fatia de queijo. Anos depois, já adulta, fazia o teste de glicose na urina. Colocava urina num tubo de ensaio, misturava o reagente de Benedict, levava ao fogo, aquecendo até acontecer a reação. A presença de glicose na urina mudava a cor azul da mistura para marrom, e quanto mais escura, mais glicose tinha, o que a fazia decidir sobre qual a quantidade de insulina tomar. A insulina era extraída do pâncreas de boi e porco, e, impura, dava lipodistrofia - saliências e afundamentos na pele. A seringa era reutilizável e de vidro, a agulha longa e rombuda e ambas eram fervidas no estojo com água, sobre álcool e fogo. As aplicações, para não ficarem profundas, eram feitas na região lateral externa do antebraço, com o artefato em 30 graus. Os exames de glicemia (glicose no sangue) eram raros e a dieta era de alta restrição de carboidratos. Depois começou a usar a insulina regular, que tem ação rápida, nos momentos de glicose muito elevada. Os desmaios por hipoglicemia (glicose baixa) eram frequentes, e muitas vezes ela foi encontrada em coma pelo marido. Essa mulher teve dois filhos. O primeiro nasceu bem e morreu logo depois de hipoglicemia. Não foi feita nenhuma glicemia naquela gravidez. O segundo filho nasceu surdo. As novidades foram sendo usadas, como glicemias capilares, insulinas ultrarrápidas, insulina humana e assim por diante. Ela viveu com Diabetes Mellitus tipo 1 dos 11 aos 69 anos, quando veio a falecer de infarto. Não manifestou alterações graves de visão, função renal nem das pernas. Era responsável e aderente ao tratamento. Viveu bem, consideradas as limitações tecnológicas da época do diagnóstico.
 
Uma menina que hoje manifeste diabetes tem a sua disposição, além da insulina NPH humana feita sinteticamente pela técnica do DNA recombinante, inúmeras alternativas de análogos de insulina, com suas peculiaridades e maior estabilidade, com ação e oscilações glicêmicas mais previsíveis. Essa seria a insulina basal, ou seja, a do jejum. As seringas são descartáveis e de agulhas finas, curtas e confortáveis. São populares as “canetas de insulina”, nas quais o produto está acoplado e tem um dosador, sendo de fácil utilização e transporte. As aplicações são nos braços, abdômen, coxas e glúteos, e as gravidezes são mais seguras. O lema é medir e corrigir. A monitorização da glicemia capilar em casa é de domínio da população, assim como o uso das insulinas ultrarrápidas. Estas são de ação curta, cobrem as refeições e são usadas há 20 anos, imitando, em parte, o funcionamento do pâncreas. Esse órgão, atrás do estômago, produz insulina e tem um medidor ultra preciso, produzindo o hormônio exatamente na quantidade necessária para o momento. A insulina é a chave que abre a célula para levar a glicose, o nosso combustível, para dentro dela, para ser usada na produção de energia. A dieta não é mais tão proibitiva, havendo maior flexibilidade. Picar o dedo não é a única maneira de saber a glicemia. O cateter do sensor FreeStyle Libre, de 2015 colocado no braço faz a medição no líquido intersticial (aquela “aguinha” que sai nos ferimentos superficiais) e é trocado a cada 14 dias. O leitor informa a glicemia a todo instante, bastando para isso ser passado sobre o medidor. Os exames anuais de fundo de olho e urina de 24 horas informam quando outros cuidados deverão ser tomados com olhos e rins. Como substituta das injeções de insulina, existe também a Infusão Contínua de Insulina – Bomba de Insulina-, na qual uma máquina menor que um celular injeta a insulina ultrarrápida basal conforme programação. Nesse sistema, há também a aplicação de insulina em bolus, conforme a glicemia do momento, para correção, assim como cálculo da necessidade conforme a refeição, por estimativa ou contagem de carboidratos.  Há necessidade de picar o dedo, mas já existe o sistema medidor e aplicador acoplados. Isso já existe em alta escala, ainda que, pelo preço, não esteja ao alcance de todos. O portador de diabetes, conforme padrões comportamentais e alimentares, associados à carga genética e grau de controle, terá um tempo de vida a cada dia mais próximo daquele previsto para o seu grupo social.
 
Evitar as complicações já é possível. O Dia Mundial do Diabetes, comemorado no dia 14 de novembro, é o momento de divulgarmos os avanços e conscientizarmos acerca da doença, além de lançar luz contra o preconceito.
 

* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”



A rosa e o sorvete, ê João

* Por Urda Alice Klueger

No final de 1966 eu vi televisão a primeira vez – durante 15 minutos, um pedacinho de novela – e fiquei encantada com aquela novidade. Mas voltei a ver televisão de novo lá por 1968 ou 69, e muita a partir de 1970, com a Copa do Mundo no México. Portanto, não vi o III Festival da MPB 1967 - A Grande Final (TV Record), que aconteceu em outubro de 1967. Só ontem à noite, 40 anos depois, deparei-me com ele no www.youtube.com, e aproveitei para passar roupa a ferro enquanto o via. Claro que desliguei o ferro uma dúzia de vezes para ficar ligada aqui na telinha vendo aquele verdadeiro ESPETÁCULO que ele foi!

A fina flor da moçada de então competindo entre si num palco modesto de um teatro, tendo como maior glamour os seus talentos tão imensos que até hoje não foram desbancados. Eu não vi aquele final de festival, mas sabia de cor, uma por uma, as músicas que então concorreram, e recordo vagamente de ouvir, no colégio Pedro II, meninas como Joyce Leitão ou Berenice Silva, que já tinham televisão em casa, falar algumas coisas, que me pareciam magníficas sobre o que tinham visto. Nesse tempo eu morava no Colégio São José (Garcia/Blumenau), das queridas Irmãs da Providência de Gap, e lá nem se imaginava, ainda, ver televisão. Penso que aprendi as músicas foi nos radinhos à pilha da Dolores ou da Carmen, colegas que usavam a mesma sala de estudos no Colégio São José, e que já tinham esses aparelhos quase primitivos, com suas capinhas de couro marrom, última novidade da época. Eu ganharia o meu próprio rádio só no ano seguinte, e o meu era uma coisa incomparável: designer avançado, capa de couro negro e longa antena flexível, um desbunde!

Mas o que quero contar foi o que vi ontem. Aconselho você a entrar no youtube e ver com seus próprios olhos e seu coração – deixo até o endereço aqui: https://www.youtube.com/watch?v=kB5XJR6w2C4 .

Nem sei o que contar primeiro. Talvez daquele palco tão pesado de tantos talentos que valeria seu peso em diamantes; ou de um garoto sendo entrevistado e dizendo, surpreso: “Televisão? Mas isto aqui está passando na televisão?”. Naquela altura, ainda o chamavam de Veloso, com muita intimidade, como se fosse um garoto qualquer, e Roberto Carlos, um menino, cantando “Maria, carnaval e cinzas”, que cantei junto palavra por palavra, e Chico arriscando nos tempos difíceis e cantando “Roda viva”, com os censores quase a bater-lhe à porta – pois é, era tempo de ditadura, e para os que não sabem como é, fazer alguma menção política era perigosíssimo, por mais velada que fosse, e inclusive vaiar era muito perigoso também. Para os que estão pedindo ditadura de novo, seria bom darem uma espiada no que aconteceu, pois o povo se sentia livre dentro daquele teatro e vaiava com todas as forças, porque era o jeito que havia, então, de resistir.

Voltando às coisas veladas que uma ditadura exige, Gilberto Gil apresentou uma música que parecia uma historinha de amor e ciúme, mas onde a mocinha tinha na mão um sorvete e uma rosa. Vejam as dificuldades de não se poder falar: só a genialidade do Gil para fazer rimar as coisas de tal modo que pudesse dizer que o sorvete de morango era vermelho, e que a rosa era vermelha... cor proibidíssima pela censura da época. Era a forma de engajamento que havia então, e muita gente das artes foi punida, logo adiante das mais diversas formas: Caetano foi expulso do Brasil e amargou o exílio em Londres; Chico teve que ir embora para Itália, coisas assim. Acho que é bom contar estas coisas – muita gente não sabe.

E então fico pensando naqueles talentosos jovens todos que estavam lá – vou citar mais alguns, como Nara Leão, Elis Regina, etc. etc, e que marcaram a vida das pessoas e do país com suas músicas que são cantadas e ouvidas até hoje, e de alguns que já partiram... choro agora, enquanto escrevo, de tanta saudade, assim como chorei tanto ontem à noite, enquanto a roupa esperava o ferro de passar. Tire um tempinho e veja também.

Sertão da Enseada de Brito, 15 de novembro de 1917.



* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).
Tanto faz


* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral


Se a poesia não te satisfaz,
tanto faz!
Se o arremate não te apraz,
tanto faz!
Faço de conta que nem ligo,
disfarço meus queixumes e
sigo como quem nada quer
a esconder os dedos cruzados
atrás das costas...



* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
Rumo a 2018

* Por Adelcir Oliveira

Trem noturno para Grajaú. Eu parafraseava o bom filme "Trem noturno para Lisboa", com o excelente Jeremy Irons. Dirigia-me para a casa da minha bela namorada, Marilene Sabino, chamada por todos de Mari. No twitter publiquei minha paráfrase, citando dois fatos que vi. Uma roda de jovens, em que observei a palavra mais repetida por eles: "mano". Depois, uma dupla feminina. Que cantava música gospel. Desafinação e pseudo entusiasmo. É assim mesmo: eu não creio no entusiasmo do religioso. Se existe, é inventado, e o prazo de validade é curto. 

Era uma noite de sábado. Eu trabalhara sete horas. Tive a boa cia do meu grande amigo Alan Davis, já mencionado aqui. Somos "amigos de copo e de cruz". Fazemos parte do regime CLT dentro da instituição que nos emprega. E temos objetivos diferentes. Alan estuda para se tornar professor universitário. Eu caminho para o que chamo de fórmula híbrida: CLT + trabalho autônomo. 

São rumos e são buscas. E a vida segue. Tentar é importante, isso é dizer mais do mesmo. E no que se tenta, estratejar é fundamental. E isso são lições aprendidas durante a vida. Foi o tempo de passo em falso. Já passamos dos 40 anos. 

Ia para o Grajaú, subdistrito em que mora minha linda e adorável Mari. Teríamos algum tempo juntos. Faz sete meses que namoramos. Eu que passei anos sem uma namorada, vivendo de escassas e inúteis aventuras. Demorava. O tempo ia passando. Eu, solteiro. Negando pretendentes. Sendo questionado. Advertido que escolhia demais. Mas permaneci na minha posição. Escolhi. Não que houvesse tantas opções. Elas existiam, eram  poucas, sim. E mesmo nessa escassez eu negava as mãos (e todo o resto) às pretendentes. Até que surgiu a Mari. E, passadas algumas dificuldades, o ajuste da sintonia se deu. E hoje navegamos juntos em mar de harmonia e muito amor. Mari é de fato a única mulher que amei de verdade.

Da estação Pinheiros até a estação Grajaú são muitas paradas. E eu vou lendo notícias ou conversando com a Mari por meio de aplicativos. E reflito. Eu quase sempre faço isso. Tenho refletido muito. Bastante tempo sem escrever, mas absorvendo informações e observando muito.

É comum o chamado "shopping trem" nos vagões da CPTM e Metrô aqui em São Paulo. E são muitos os vendedores. Jovens, em sua maioria. Em busca da autonomia e lucros acima de salários baixos e cargas horárias excessivas. Não que estes jovens vendedores trabalhem menos horas. Mas se extenuam de tanto trabalhar, é por conta própria, como costumam dizer. 

Fábio é sobrinho do meu outro grande amigo, o Gama. Trabalhava comigo na mesma empresa que o Alan Davis. Foi demitido após uma reestruturação na empresa. E ele queria ser demitido. Só não esperava que seria demitido do seu outro emprego. Daí, fiou-se às vendas. Inscreveu-se como microempreendedor, pagando o INSS todo mês. Hoje Fábio tem uma renda maior da que tinha com dois salários. Trabalha muito, sem dúvida. Mas não tenho má vontade, nem a preguiça de quando era empregado, diz o jovem empreendedor.

O fato é que a carteira assinada será cada vez coisa mais rara nos anos vindouros. É a chamada "pejotização" da economia. No Brasil já foi aprovada a terceirização geral. Muita gente vai virar prestadora de serviços sem registro em carteira. Ou seja, será contratada com pessoa jurídica: PJ. 

Há aqueles que temem o futuro. Eu vibro. Sim, tenho muito otimismo. Mas comigo, não com o país. Eu penso firmemente que ganharei mais dinheiro nos próximos anos. Claro que todos estamos em função do que ocorre economicamente no país quando se fala em dinheiro e trabalho. Neste sentido, parece-me que o ambiente econômico aqui vai melhorar. Teremos novos investimentos. Menos desemprego e uma população menos endividada e mais confiante para novos gastos e tomadas de empréstimos. 

Claro que seguiremos um país com graves problemas sociais relacionados às desigualdade e enorme violência justamento por conta da citada desigualdade. Sobretudo por que teremos muito provavelmente governos alinhados à agenda neoliberal, cuja principal característica é governar para grupos reduzidos, contemplados a partir das classes médias. Abaixo disso, as pessoas que fiquem com sua própria sorte.

E quem será o candidato vitorioso alinhado à agenda neoliberal. Eu acreditava firmemente que seria o prefeito de São Paulo João Doria. Mas política requer análise constante. Hoje penso que Geraldo Alckmin pode ser favorecido pelo chamado voto útil contra duas ameaças altamente conservadoras: Bolsonaro e Doria. Um nos costumes, outro na economia. 

O Jornal Financial Times afirma que Bolsonaro será eleito. Doria diz que as ideias de Bolsonaro são frágeis e vão se desidratar durante a campanha. Eu concordo com o prefeito, e creio que o deputado carioca chegará em quarto ou terceiro lugar. 

A corrida presidencial segue. Lula deverá ficar de fora por uma condenação em segunda instância. Com isto, o PT não terá um candidato com a musculatura do ex-presidente. Marcará território, nada além disso. De certo, ficará de fora do segundo turno, se houver. A esquerda terá Ciro Gomes e Marina Silva como principais candidatos. Dividida, com a presença ainda do PSOL, dará espaço para a direita decidir entre seus candidatos as vagas no segundo turno ou uma vitória já em primeiro turno. E é nessa fraqueza e divisão da esquerda que vejo a oportunidade para Alckmin rumar à vitória, recheado de voto útil de progressistas, temerosos de uma vitória mais ainda à direita do Doria ou Bolsonaro.

Muita água ainda vai rolar. A Lava-Jato ainda ameaça o atual governador de São Paulo. Aécio e Serra já ficaram para trás. Cabe a Alckmin engolir sua cria: João Doria. Livrar-se de eventuais denúncias. Lula deverá morrer na praia. Marina não vai muito além dos 20% de voto. Ciro não tem força. Bolsonaro é só uma onda. E Doria pode ser derrotado pelo voto útil em Alckmin.

Aguardemos os próximos lances no tabuleiro de 2018. Nossa frágil democracia, que anda sendo contestada, passa por um teste difícil. Deverá sobreviver. Mas certamente tem dado passos para trás em relação ao seu fortalecimento. Se tivermos eleições no ano que vem, já deveremos nos dar por contente. Quanto ao resultado, que seja o menos pior para o Brasil.


* Blogueiro e corretor de imóveis.



Agora


* Por Adão Ventura


É hora
de amolar a foice
e cortar o pescoço do cão.

Não deixar que ele rosne
nos quintais
da África.

        É hora
de sair do gueto/eito
       senzala
e vir para a sala
nosso lugar é junto ao Sol.



* Advogado e poeta mineiro