segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, cinco meses e vinte dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – O verso bom.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Palavras”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “O agiota”.

Coluna Direto do Arquivo – Docqa Ramos Mello, crônica, “Nós versus Zico”.

Coluna Porta AbertaAlcides Buss, poema, “O flamboyante e os poetas”.

Coluna Porta AbertaBetha Mendonça, crônica, “Poema e poesia”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



O verso bom


A minha admiração pela obra de Jorge Luiz Borges é irrestrita e jamais escondi isso de ninguém. E nem seria necessário esconder. Praticamente todas as pessoas, através dos tempos, adotaram ídolos nos quais se espelharam, não importa de que atividade eles eram. Outrora, estes indivíduos tomados como referenciais eram guerreiros, que se destacavam em batalhas, que em defesa de princípios, quer de mera conquista de territórios.

Houve tempo em que esses parâmetros de grandeza e de eficiência foram os exploradores de terras desconhecidas e distantes, os grandes navegadores, os aventureiros que incendiaram a fantasia de gerações, notadamente dos jovens. Hoje em dia, porém, as opções são mais modestas e estão restritas a mega-atletas (que quebram recordes e mais recordes nas pistas e nas piscinas), jogadores de futebol, vôlei, basquete ou qualquer outro esporte popular e/ou astros do cinema e da música popular.

Eu, da minha parte, elegi escritores como modelos do que sempre quis ser. São os meus ídolos. E, entre eles, Borges ocupa, sem dúvida, lugar de grande destaque. Confesso ter sofrido influência decisiva do mago que tinha nos tigres, espelhos, punhais e nos labirintos verdadeira obsessão na minha forma de fazer literatura e, sobretudo, de ver o mundo. Claro que não foi só ele o meu guru. Fui influenciado, igualmente, por Machado de Assis, Fernando Pessoa, Antônio Vieira, Gabriel Garcia Márquez, Octávio Paz e tantos e tantos outros, que me indicaram caminhos a seguir e me deram aulas de lucidez e racionalidade em seus escritos.

Poeta, ensaísta e contista, o escritor argentino (para mim ele mais do que detentor de uma nacionalidade específica, é cidadão do mundo), criou um estilo literário “sui generis”, em que seus personagens mesclam situações de realidade e fantasia que nos enredam, acumpliciam e convidam à reflexão. É impossível ler algum dos seus textos sem se deter, amiúde, para refletir sobre algum dos mistérios da vida e do universo que ele aborda, mesmo que para discordar das suas colocações. E são tantos...

Gosto, sobretudo, do poeta Jorge Luiz Borges. Não que despreze o que escreveu em outros gêneros. Pelo contrário! Entendo, no entanto, que é na poesia que ele revela toda a sua criatividade ímpar e que transcende ao seu tempo e até à sua humanidade. Ascende, por intermédio dela, o panteão dos imortais, ao lado de Homero, Virgílio, Horácio, Camões e mais um punhado de gênios.

Em uma entrevista que concedeu pouco antes da sua morte, Borges destacou: “Não há nada neste mundo que se possa comparar ao poeta. Porque este vislumbra o que vai além do horizonte. E isto é o todo”. E não é?! E ele vai mais além. Considera o poeta “construtor lírico de uma humanidade melhor”. Também penso dessa forma.

Há, claro, Poesia (com “p” maiúsculo) e mero arremedo dela. Há versos marcantes, que depois de lidos nunca mais se apagam da nossa memória e outros cujo significado não chegamos jamais a apreender e que, por conseqüência, não geram qualquer efeito, por não passarem de mera pirotecnia verbal.

Há poemas que morremos de inveja por não termos sido nós seus autores e outros tantos que não passam de empulhação, sem forma e sem conteúdo. Que são palavras soltas ao léu e às vezes nem isso, ou seja, meras letras esparsas ou simples sinais gráficos. Que valor isso tem? Que sentimentos esses pseudopoemas despertam? Em mim, nenhum. Não vejo poesia nisso. Enfim... Há gosto para tudo.

Há, porém, algum critério que permita avaliar a qualidade dos versos de um poeta? Qual? Afinal, trata-se de uma avaliação tão subjetiva! O que pode me agradar, por exemplo, provavelmente desagrade à maioria e vice-versa. Concordo que o poeta “brinque” com as palavras e até que crie neologismos. Só não posso concordar com a violação das regras do idioma, a pretexto de se fazer poesia. Muitos agem assim e querem se impor como poetas. Não são! E se o forem, são de quinta categoria.

Borges escreveu a respeito: “Um verso bom não pode ser lido em voz baixa – ou em silêncio. Se isso for possível, então o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia. O verso nos faz lembrar que, antes de arte escrita, foi uma arte oral; o verso nos lembra que inicialmente foi um canto”. E não tem razão? Originalmente, a poesia foi um canto. A musicalidade ainda hoje é fundamental. Portanto, está aí um bom critério de avaliação de versos. E quem faz essa afirmação não é nenhum poetastro, convenhamos, mas um dos mais criativos e marcantes poetas dos tempos modernos.

Para Borges, um poema nunca estará concluído enquanto estivermos vivos. O que parece ser um novo, é, na verdade, sempre o mesmo, posto que sob novos enfoques, com outra roupagem, outras palavras, certamente, com metáforas diversas das anteriores, mas ainda assim uma continuidade da criação original. O que se requer do poeta é disposição e, mais do que isso, coragem para continuar escrevendo esse mesmo poema até encontrar um final eloqüente e definitivo para ele. E ele jamais saberá se conseguiu concluir, de fato, ou não, o que estava escrevendo.

Borges acrescentou, a propósito: “Talvez em uma dezena de dias esse poema que passei escrevendo a vida toda se transforme em uma obra completa. Do contrário, deverei seguir pensando como Galileu Galilei, que a valentia é uma forma de lucidez”. O dele, certamente, foi complementado, e com talento, grandeza e sensibilidade.

Seus versos são impossíveis de serem lidos em voz baixa e ecoam em nossa alma vida afora. Daí Borges haver logrado aquela eternidade que todos nós, artistas, procuramos e raros (raríssimos) conseguimos alcançar: a da perpetuidade das obras. Inúmeras vezes ele afirmou que sua maior ambição era ser esquecido depois que morresse. “O tempo se encarregará de me suicidar”, afirmou, certa feita. Como, mestre?! Como esquecer o que está gravado a ferro e fogo na memória e no mais profundo patamar da nossa alma?! Borges é, e sempre será, inesquecível!

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Palavras

* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral

Umas são pequenas
outras não tem fim...
Umas  são amenas
outras nem tanto assim...
Umas te derrubam
outras te levam ao céu...
Abençoada  seja a sua boca
que me resgata
e descobre o meu véu...



* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
O agiota

* Por Talis Andrade

A cobrança um jogo
que requer paciência
rechego
Do agiota a obsessão
o desfrute da persistência
na perseguição
a destreza
de brincar de gato
coa presa
o prazer de excruciar
matar de pouquinho
bem devagarinho
como se fosse um carinho
O agiota suplicia
pelo gosto de sangue
Nos tempos de ditadura
apresenta-se como voluntário à polícia
para servir nos calabouços da tortura
Não é aferro de fanático
O agiota não tem bandeiras
não tem pátria nem deus
O agiota um cadáver que ama os cadáveres
A tortura um contato erótico
As lágrimas o sangue
a urina o excremento
são para o sevicia-
dor cheiros sabores
afrodisíacos alimentos
Quanto mais remorseado o corpo
sangrada a carne
intenso o desejo
o prazer

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



Nós versus Zico


* Por Doca Ramos Mello


Arrááá!!! Enfiamos quatro bolas no Japão!

Peço perdão pelo entusiasmo, eu sou uma torcedora renitente porque sempre morro de pena dos adversários, ainda mais os japoneses, dos quais sou admiradora confessa, temos muitos japoneses brasileiros (nissei, bagunssei, nunssei...), a gente gosta deles, eles são de casa, nos ajudaram muito o país, então isso me dificulta tudo na hora de torcer contra... Isto é...

...Dificultaria, não fosse minha implicância com o Galinho de Quintino. Eu fiquei emputecida com o Zico. Não é que eu tenha assim uma espécie de raiva dele, vocês podem acreditar? Pois tenho. Eu lá me conformo em ver o sujeito cantando o hino japonês com a mão no peito? Brincadeira...

Bem, a seleção japonesa, coitadinha, me deixou meio tonta; eu acho que Zico, espertíssimo como qualquer brasileiro e ainda mais jogador de futebol, botou logo uns quarenta jogadores assim de três em três com o mesmo número de camisa e nem o juiz se deu conta. Digo isso porque os japinhas correram em desespero campo afora sem trégua. Não há cristão que agüente aquela correria sem abrir o bico e os mocinhos nem suavam. Então só pode ter sido que Zico trocava de japonês a toda a hora sem que ninguém percebesse, tanakara, nô?

Corriam, eu disse. Disparavam, devo dizer. Não faziam nada, coitados, mas desabalavam feito formigas desesperadas. Eu acho que lá no Japão é pouca terra para muito japonês. Então, quem corre mais chega primeiro e senta, ou deita, sei lá, quem vem depois, se lasca todo, daí uma verdadeira disposição para o arakiri ali mesmo. Ou tudo ou nada. Era como se tivessem um motorzinho debaixo dos pés, o que, em se tratando de povo japonês, não se pode desconsiderar como hipótese bastante viável. Eu já estava com aqueles meus eternos problemas de caridade para com o adversário (naturalmente dissociando a seleção sol nascente de Zico, o traidor da pátria), quando entrou em campo um Takahara, que confundi com Kitahara, justamente o sobrenome de um médico conhecido nosso. Então fiquei pensando que podia ser parente dele, um samurai afastado, essas coisas. Julguei que devia maneirar ainda mais na torcida. Vai que o cara aqui ficava sabendo da minha indelicadeza, não pegaria bem. Mas o Takahara entrou babando, não deu cinco minutos e foi terminar de babar no banco, matshukado, de modo que eu pude voltar a meter o pau em Zico.

Isso aí. Meter o pau em Zico, com aquela cara de infeliz encostado no poste, quando viu que a vaca tinha ido p’ro brejo completo, nô? Ganhasse da gente e era capaz de vestir um quimono e ficar abrindo a boca na frente da tv a gritar arigatô, arigatô, sayonará, vê se eu aturo uma barbaridade dessa?! Prevendo a coça, já tinha dito que não se podia ensinar ninguém a fazer gol e patati, patatá, toforajá, essas desculpas esfarrapadas... Mas Zico estava com a maior zica, hehehe!!!

Durante a partida, vi alguns jogadores japoneses diferenciados, a modernidade está acabando até com a tradição dos cabelos negros deles e, cada vez que aparecia um de cabeça amarela, eu gritava p’ro meu marido: “benhê, olha lá, o cara é loiro”, e meu marido respondia ‘é natural, é natural’, com um risinho safado no canto da boca.

Muito me impressionou também o goleiro deles, coitado, que engoliu quatro frangos, dois só de Ronaldo, e ainda dava altíssimas broncas ferradas nos companheiros de equipe, fazia caretas medonhas, exortava todo mundo a correr (acho que eles deviam se dedicar à maratona). Queria, com certeza, tirar o peso dos ombros (e que peso!). No final da partida, murchou todo, ficou sem forças, deve ter saído do campo direto para enfiar a cara no saquê...

Ó, eu também não gosto do Felipão. Vão aguardando aí...



* Jornalista
O flamboyant e os poetas

* Por Alcides Buss

O flamboyant, assim como faz o manacá
de cheiro, segura-se na terra.

Em seus braços, tão aéreos,
o ar ensaia o trapézio.

Nas pernas, bem juntas, proliferam-se
os dedos e as unhas.

Nas mãos, que são muitas, se juntam
as folhas – as folhas prolíferas

dos poetas inéditos,
refratários incuráveis à razão

e que melhor se saem
nas nuvens que no chão.


* Professor universitário e poeta
Poema e poesia

* Por Betha Mendonça

Acabou a poesia que me sustinha a fé nos dias, e corria bicho solto pelas campinas do meu querer. Aquele que rolava em novelos de prazer pelas ladeiras dos sentimentos, bolhas d’água e sabão, delicadezas a explodirem em festas no ar.

Triste ver um poema espalhado pela casa, mãos perdidas dos dedos pelos cômodos, sem poder na pena e tinta tomar vida.

E um grito canta da sala à varanda, uma música cai do piano, uma lágrima alimenta o aquário e a alegria sai pela porta da frente. Na soleira um sorriso sem viço sobre o tapete de boas vindas.

Tudo por causa daquele nome retido na boca, que feito um livro guardou as palavras, e, levou consigo os meus versos. Sem ele não existe poesia que valha um poema.


* Poetisa paraense.