segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, quatro meses e vinte e quatro dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Tentando entender as obsessões de Borges.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Onde?”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “A descida do anjo”.

Coluna Direto do Arquivo – Abílio Pacheco, poema, “Andança”.

Coluna Direto do ArquivoDanielle Arantes Giannini, conto, “A mulher sem boca”.

Coluna Direto do ArquivoAdalton Oliveira, artigo, “Progresso e meio ambiente”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Tentando entender as obsessões de Borges


A obra literária de Jorge Luís Borges, de 41 livros publicados, muitos dos quais editados em vinte idiomas diferentes, traz ao assíduo leitor uma infinidade de assuntos. Alguns mereceram apenas ligeiras menções, enquanto que outros ocuparam não apenas um, mas vários volumes. Afinal, por mais extensa que fosse sua cultura (e esta era excepcional), como todo ser humano, o escritor argentino não tinha (mas bem que ambicionou ter) a virtude da onisciência. Cinco temas, entretanto, predominaram em sua poesia, narrativas curtas, ensaios e outros tantos textos seus: os espelhos, os labirintos, os tigres, os punhais e os tipos humanos, sobretudo da sua Buenos Aires natal.

Já tratei desse assunto um sem número de vezes, porém, volta e meia descubro novidades a respeito, através da leitura de textos “de” e “sobre” Jorge Luís Borges, escritor que me desperta especial fascínio e que influenciou e segue influenciando mina maneira de ver e de fazer literatura. A origem dessas cinco obsessões borgianas a que me referi está, como ele mesmo confidenciou em mais de uma oportunidade, na sua infância. Era de se esperar. Essa é uma fase que, sem que nos apercebamos ou admitamos, muitas vezes determina o que faremos e o que seremos no restante de nossas vidas. É o que pude constatar em minha experiência pessoal. Quase todas as ideias que exploro são coisas que pensei na meninice e que amadureci com o tempo.

O crítico literário Leo Gilson Ribeiro, em excelente análise que fez da obra borgiana, na coluna que assinava periodicamente no extinto “Jornal da Tarde”, na explanação que fez a respeito na edição de 16 de junho de 1986, explica como se deu essa assimilação mágica do escritor argentino das coisas que o fascinavam (mas também aterrorizavam) quando criança. Essa obsessão temática, admitida pelo próprio Borges, foi confirmada por seus parentes, amigos e por diversos estudiosos de sua obra (entre os quais me incluo). Analisemos, uma por uma, essas vertentes que, para mim dizem muito das motivações literárias desse escritor.

Sobre o fascínio de Borges por espelhos, a melhor das explicações foi dada por sua irmã Norah, casada com o crítico literário Guillermo de La Torre. Claro que ela aponta somente a causa externa da obsessão borgiana e não o processo psicológico que despertou essa marcante fantasia infantil que perduraria pelo resto da vida do irmão. Ela informou: “Os espelhos foram uma obsessão durante a infância de Jorge. No quarto havia um grande, que refletia a sua imagem. Ficar só, na cama, com esse objeto à sua frente, era seu terror diário. Uma ameaça contínua. Jorge tinha medo até do vago reflexo de seu rosto”, revelou Norah.

Leo Gilson Ribeiro acrescentou a propósito: “… Em casa, se via triplicado por três espelhos de um armário grande e temia que aquelas três imagens pudessem mostrá-lo diferente do que ele fosse realmente. E, se de repente, ele surgisse não só diferente, do que ele fosse realmente? E, se de repente, ele surgisse não só diferente, mas metamorfoseado em algo monstruoso, apavorante, irreconhecível e irreversível?”. Muitos de nós também tivemos fascínio parecido pelo espelho, embora não nos lembremos, ou não admitamos ou que sequer saibamos. Observemos, por exemplo, uma criança que comece a tomar consciência do ambiente em que está. Coloquemo-la diante de um espelho, objeto que ela nunca tenha visto antes. Sua primeira reação, provavelmente, será a de buscar contato tátil com aquele “outro” que vê refletido e que lhe parece familiar.

Ao perceber, porém, que cada gesto que faz é reproduzido integralmente pela imagem que vê, embora não revele verbalmente ao observador (por ainda não dominar a comunicação pela palavra), se observarmos atentamente essa criança notaremos, em seu rosto, enorme perplexidade, desesperada indagação muda, seguida, muitas vezes, de instintiva reação de medo. Poucos de nós não passamos por experiência parecida, embora não nos lembremos. E poucos de nós não manifestamos medo pelo desconhecido. É questão de instinto.

As outras quatro obsessões de Jorge Luís Borges nada têm a ver com experiências reais, concretas, vividas pelo escritor. São impressões de leitura, de observações visuais ao acaso ou de casuais e inconscientes associações de ideias. Os labirintos, por exemplo, segundo Maria Esther Vasquez, amiga pessoal do escritor, advêm da sua lembrança de uma gravura que viu quando menino tratando do Minotauro de Creta, onde este ser meio homem, meio touro estava confinado. As impressões que temos quando crianças são as mais puras e lúcidas, pois não sofrem a influência de eventual tentativa de análise ou de explicação. Isso vem depois, às vezes, muito depois. Elas fixam-se, simplesmente, na memória, como as imagens se fixam em chapas fotográficas virgens e de boa qualidade.

A esse propósito, Borges revelou que o labirinto era “o assombro que cria a metafísica, como diz Aristóteles, e o assombro foi sempre uma das emoções mais comuns em minha vida, como na de Chesterton, que dizia: ‘tudo passa, mas sempre fica o assombro, sobretudo o assombro perante a vida de todos os dias”. Voltarei ao assunto para co9mentar as outras três obsessões.

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk            
Onde?


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Penso no dia que passou,
busco no ontem onde foi
que eu errei, onde foi que
eu te feri.
E de tanto procurar perco
o caminho de volta.
Suspiro chorosa e ainda
cansada, começo tudo
de novo.


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
A descida do anjo


* Por Talis Andrade


Desceu um Anjo 
e cingiu-lhe a fronte 
de rosas e beijos. 
Coa madrugada, 
quando ele partiu 
nem sequer sentiu 
a ferida que sangrava, 
desde que era jovem 
e imensamente belo. 
 
No segredo do quarto, 
quando retornou a noite, 
começou a sofrer 
uma excessiva sensibilidade 
que não lhe deixava dormir. 
O corpo era todo olfato: 
as narinas aguçadas 
por estranhos cheiros 
trazidos de longe 
pelo vadio vento. 
 
Os ouvidos sondavam sons 
vindos das florestas: 
os gritos dos animais em luta, 
os gritos dos animais no cio. 
Os ouvidos sondavam sons 
dos mais profundos abismos. 
Os ouvidos detectavam estranhas falas 
de longínquos países: 
as vozes das casas vivas, 
os lareiros, os fogões acesos. 
 
A visão acordada. 
Os olhos - que se deslumbraram 
com o colorido das flores, o encanto das mulheres - 
aguardavam, no distante horizonte, 
uma aparição alada. 
 
Contraído e indefeso 
no canto da noite, 
sofria o frio 
de quem está nu, 
sofria o calor 
de quem arde 
desejoso de amor. 
 
Chegado o sétimo dia, 
ansioso pela espera, 
profanou-se com os homens 
pela desconcertante semelhança 
com o Anjo. 
E passados mais sete 
longos parados dias 
foi encontrado boiando 
no lodo resvaladiço. 
Escorria da boca 
podre sangue azul. 
A linda boca, vermelha 
de papoulas e beijos, 
ainda hoje permanece 
umedecida de pus. 
 

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).





Andança


* Por Abílio Pacheco

Carrego meus males todos
juntos no mesmo bolso,
juntos do mesmo lado — no peito esquerdo.

Sigo assim meio de lado
puxando de uma perna
e arrastando meu corpo torto
pela rua muda.
 
* Poeta baiano, residente em Belém-PA, autor dos livros “Poemia” e “Mosaico primevo – poemia”.


Mulher sem boca


* Por Danielle Arantes Giannini


De manhã, abri a porta do elevador e dei de cara com a mulher, mulher sem boca, bem cedo, bom dia. Expeli a saudação matinal aos sussurros e virei de costas porque a falta de boca da mulher me incomodou. Ela só tinha testa, dois olhos ainda inchados do sono e um nariz qualquer. A falta de boca chamava a atenção. Pensei que tipo de mulher seria aquela, saiu de casa sem colocar a boca. Mulher apressada certamente, mulher descrente de tudo, afinal para que boca se nada na vida sai como planejado, mulher sem vaidade talvez. Podia ter se servido de um mísero batom e não o fez, sabe-se lá o por quê.

Saí do elevador com passo apressado, igual gente importante, para não me perder mais em conjecturas sobre a boca que a mulher não tinha. Mas não teve jeito, vi tantas bocas desfilando nas ruas, que foi impossível deixar de notar, nunca as bocas tinham se feito tão presentes. Para espanto meu, observei que outras mulheres andavam sem boca; fosse a falta de uma bolsa, de sapato até, mas sair de casa sem boca era o fim. A variedade de bocas que passou por mim foi enorme, bocas de todos os tipos e tamanhos, bocas grossas, finas, ágeis, molhadas, ressecadas, moles, caídas, risonhas, todas bocas.

Em poucos minutos deu para notar que a boca da moda era a carnuda, estava à venda nas melhores lojas do ramo, injetável, fácil de aplicar. Essa boca impunha respeito, dava segurança às mulheres, afinal não era um mero traço abaixo do nariz, era volumosa, esbanjava sensualidade. Imaginei que palavras saíam daquele tipo de boca. Nem todas as bocas que as mulheres carregavam eram exuberantes assim, havia outras mais modestas, não tão intensas. Eram mulheres que escondiam suas bocas normais atrás de cores variadas, umas brilhantes, em tons de rosa, marrom, carmim. As bocas vermelhas, caprichosamente desenhadas, deviam levar um bom tempo até ficarem prontas para sair à rua; ainda bem que para o caso de emergência as cores podiam ser reaplicadas a qualquer momento e em todos os lugares, com o perdão da etiqueta.

Triste mesmo foi esbarrar em uma boca rachada, não sangrava, mas tinha um couro grosso, ressecado, não via água há quanto tempo, cogitei. A mulher que a transportava estava com olhos cansados, talvez estivesse ela mesma rachada por dentro.

Conforme eu caminhava, mais bocas apareciam, situação insuportável essa de topar com bocas aqui e ali, bocas assim e assada; se fossem os olhos a saltar do rosto das pessoas, mas eram bocas. Bocas que se movimentavam freneticamente, outras lentas, outras ainda fechadas. Engraçado foi ver bocas que executavam risadas, gargalhadas, essas eram bocas que não se importavam de parecer tortas por uns segundos, tempo suficiente para se ver tudo dentro delas, desinibidas. No restaurante, vi uma boca nervosa sentada perto do bufê de saladas, não parava de mastigar alface, nem sei quanto tempo permaneceu ali naquele exercício mandibular. Na mesa ao lado, uma boca severa atracada a um pedaço de carne mal-passada, escorria sangue de animal abatido. No toalete, mais bocas, todas dispostas diante do espelho, sendo redesenhadas, para a salvação das mulheres.

Como havia bocas para escolher, bocas amenas, bocas raivosas, bocas culpadas, bocas que só se dignavam a sussurrar qualquer coisa indecifrável ao serem interpeladas por outras bocas, bocas masculinas também, de tipos variados, mas nem tanto. De umas saíam músicas, de outras lançavam-se impropérios, umas permaneciam em posição de bico por longo tempo, algumas não era bocas. Depois de bocas e bocas, nada me chocou tanto naquele dia quanto a boca que vi sendo carregada como um fardo por uma senhora que vestia trapos e nada mais, era uma boca cor de pele, sem dentes... uma boca sem dentes, nada entrava nada saía daquela boca maltratada. Lembrei-me imediatamente da mulher sem boca no elevador e concluí que era melhor não ter boca a ser portadora de uma boca sem dentes. Nunca mais saí de casa sem verificar no espelho se estava carregando minha boca comigo, para o caso de precisar.

* Jornalista – blog http://www.lugaresdomundo.com




Progresso e meio ambiente


* Por Adalton Oliveira


Para o físico brasileiro Rogério C. Cerqueira Leite[1], se a Terra fosse a uma consulta médica, o diagnóstico seria de que ela está com um parasita, o Homo Sapiens. Há parasitas que se aproveitam do hospedeiro sem matá-lo, mas há os que o exploram até a extinção. Resta-nos saber a que classe de hospedeiros pertencemos.


A ação destrutiva do homem sobre a Natureza vem de tempos remotos, desde que começou a desmatar e a irrigar o solo para o cultivo agrícola. Há evidências de que as concentrações de CO2 começaram a subir há cerca de 8 mil anos atrás – 3 mil anos depois do aparecimento da agricultura - e foram praticamente constantes até o início da revolução industrial, de fins do século XVIII. É provável que o impacto da agricultura sobre o clima da Terra tenha sido compensado pelos próprios ciclos orbitais do planeta que estavam causando uma tendência paralela de resfriamento. Dessa forma, uma atividade humana, a agricultura, teria evitado o início de um novo ciclo de glaciação.


Contudo, as novas formas de organização da sociedade – com base no consumo massificado e no intenso uso de energia derivada de combustíveis fósseis –, estão impactando o clima do planeta de maneira inédita. Desde o advento da Revolução Industrial, a temperatura no planeta à superfície cresceu entre 0,6ºC e 0,7ºC em média e as previsões são de que a temperatura média da Terra suba entre 1,5ºC a 4,5ºC nos próximos 100 anos, valor suficiente para elevar o nível dos oceanos de forma considerável. Esta elevação de temperatura poderá ser – por exemplo – suficiente para derreter a capa de gelo que recobre as terras da Groenlândia, elevando o nível dos oceanos em 5 metros, o que seria catastrófico para aquelas populações que vivem em áreas litorâneas, obrigando milhões de pessoas a procurarem novos lugares para viver, o que provocaria profundos impactos sobre todas a regiões do planeta. Os efeitos dessa elevação de temperatura sobre a agricultura seriam terríveis, com crescente redução das áreas agriculturáveis, pois regiões hoje férteis se transformariam em desertos. Quanto aos efeitos sobre a biodiversidade do planeta, teríamos uma extinção em massa sem precedentes na história.


A ideia de progresso desde sempre dominou a mente humana. Podemos entender como progresso a mudanças feitas no presente e que conduzem a uma situação melhor do que aquela que se vivenciou no passado. Chamou-se de obscurantista aos que se opunham às mudanças trazidas por um pretenso progresso e, assim, poucas vezes os resultados desse progresso foram discutidos. Questões éticas foram postas em segundo plano ou negligenciadas, dando lugar às vantagens econômicas e de poder que o progresso traria. Os estudos sobre o átomo levaram à bomba atômica – vista como um grande avanço na área militar – mas, antes de Hiroshima e Nagasaki, não se discutiu se seria ética sua utilização.


O mundo idílico prometido pelo progresso nunca se realizou, o que vimos foi o aumento da degradação ambiental, paralelo ao crescimento da pobreza, ao advento de guerras, ao surgimento de doenças trazidas pela modernidade, como a depressão e a ansiedade. Obviamente, não se está aqui a se opor ao progresso, estamos tratando da ausência de questionamentos sobre as conseqüências deste ou daquele avanço sobre a devastação de largas áreas do planeta e a destruição de inúmeros habitats.


Em sua arrogância, o homem se propôs a conquistar a Natureza e a usá-la em seu proveito próprio, sem preocupações com os danos a ela causados. Portamo-nos como se estivéssemos imunes aos efeitos nocivos provocados ao planeta, como se nós mesmos não fizéssemos parte do delicado equilíbrio do globo. Antecipando as preocupações ecológicas do final do século XX, o grande filósofo Walter Benjamin dizia sonhar com um novo pacto entre os humanos e seu meio-ambiente, opondo-se à ideologia “progressista” de um certo socialismo “científico” e de um ideal utilitarista que reduziu a natureza a uma matéria-prima da indústria, a uma mercadoria “gratuita”, a um objeto de dominação e de exploração ilimitada.


Para a Economia, mais propriamente para as correntes do pensamento neoclássico, somos maximadores de utilidade, criaturas hedonistas insaciáveis. Dessa forma, o progresso está ligado à ideia de produção de mercadorias e serviços ad infinitum. Não se questiona se tal produção destrói a base sobre a qual se sustenta, ou seja, o esgotamento dos recursos gratuitos oferecidos pela Natureza não é levado em consideração. Para a Economia neoclássica, se a quantidade obtida de peixe numa certa área se reduziu em função da atividade pesqueira intensiva, a solução é pôr ali mais barcos pesqueiros. Um contrassenso!


Mesmo a ideia de crescimento sustentável parece vaga. Não se define exatamente o que deve crescer de maneira sustentável. Seria o produto interno bruto (PIB), a riqueza ou o nível de satisfação da sociedade? Não se sabe. A melhor definição de crescimento sustentável que conheço é aquela formulada pelos economistas ecológicos, que diz: “desenvolvimento sustentável é aquele que supre as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades”. Como fazê-lo? Eis o grande desafio atual da humanidade. Mas, como dizia Karl Marx, a humanidade não se propõe problemas que ela não possa resolver. Esperemos que ele esteja certo.

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[1] LEITE, Rogério C. Cerqueira. “Energia renovável: sonho ou realidade?” em A Terra na Estufa, Scientific American, edição especial nº 12, setembro de 2005.


* Jornalista.



* Jornalista