quinta-feira, 20 de julho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, três meses e vinte e três dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Obras da natureza

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema, “Misteriosa presença”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica humorística,Sem pizza? Nem pensar!”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto, “Tarde demais (II).

Coluna Porta Aberta – Debora Bottcher, ensaio, “O caso do mendigo, de Lima Barreto”.

Coluna Porta Aberta – Fabiana Teixeira, conto, “Dias inesperados”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Obras da natureza


O homem ainda está muito longe da compreensão dos conceitos básicos que cercam a sua existência, como quem é, de onde veio, onde está, qual a finalidade da sua existência e de tudo o que o cerca, e vai por aí afora. Todavia, em sua arrogância, acha que tudo sabe e tudo pode e age de forma destrutiva e imprudente, tentando modificar o que sequer entende como funciona e, em cujo funcionamento, portanto, não deveria interferir.

Refiro-me, claro, às pessoas excepcionais, com níveis de compreensão, conhecimentos e informações acima da média, que constituem, no correr das gerações, irrisória minoria. A grande maioria é constituída por indivíduos com nível mental pouco acima dos chimpanzés, por exemplo. Tenho lá minhas dúvidas se vários deles não são mais tapados do que grande parte dos símios.

O Planeta atravessa fase rara, em que suas condições são totalmente propícias à vida, não somente de animais e vegetais, mas, sobretudo, a humana. Trata-se de um sistema vital, com imenso e delicadíssimo equilíbrio, em que um fator depende do outro e que, portanto, nada pode ser alterado.

Para desequilibrá-lo, nem é preciso fazer muita força. Um desmatamento aqui, uma poluição das águas e do ar ali e pronto. Podem ser desencadeadas catástrofes, de conseqüências imprevisíveis e totalmente fora do controle desse animal tão frágil, mas que se julga tão hábil e invulnerável.

Estudos indicam que a Terra passou por fases de transformações cataclísmicas com duração não de milhares, nem de milhões, mas de bilhões de anos, para chegar ao estágio atual, em que se vê povoada por tamanha variedade de vida.

Esse período de equilíbrio, com temperatura ideal, com a mistura adequada de gases na atmosfera, com a camada protetora dos mortais raios cósmicos ainda quase intacta e com a distribuição adequada de água, nas exatas proporções das necessidades dos seres vivos, é coisa de parcos pares de milênios.

Para desequilibrar tudo isso, basta um piscar de olhos. E o que o homem vem fazendo? Cuidando dos ecossistemas? Preservando os fatores vitais essenciais? Não!!! Vem fazendo exatamente o que não devia. Ou seja, agredindo quem lhe deu origem e garante sua subsistência: a natureza.

Julga-se acima desta e crê ter poderes para modificá-la ao seu bel prazer, impunemente, sem que isso lhe traga consequências daninhas, catastróficas, letais. Mas não tem esse poder. Como não conta com qualquer meio para sequer tentar escapar da extinção, quer a pessoal, quer a da espécie.

Subitamente, de um momento para outro, por exemplo, as forças de temperatura e pressão, relativamente calmas e equilibradas agora no núcleo do Planeta, podem se descontrolar. Milhares de vulcões, tidos como extintos, mas meramente “adormecidos”, podem entrar, subitamente, em erupção, todos ao mesmo tempo, lançando bilhões de toneladas de cinzas e gases tóxicos na atmosfera, cobrindo a totalidade do globo terrestre e impedindo que recebamos a indispensável luz do sol. Nessas circunstâncias, a vida se extinguiria talvez em questão de dias, quando não de horas ou até minutos, sem que pudéssemos ter a menor reação.

De repente, por outro lado, as frágeis placas que constituem a parte sólida da Terra podem se mover, enlouquecidas, e se chocar, violentamente, umas com as outras, provocando pavorosos e devastadores terremotos – como nunca antes vistos, por não propiciarem condições para a existência de testemunhas – acompanhados de aterrorizantes tsunamis, com vagalhões imensos, de quarenta metros ou mais de altura. Qual a escapatória para isso? Não há nenhuma, obviamente.

E ainda assim, o homem se julga invulnerável. Destrói florestas e mais florestas, indiferente ao papel de filtro que a densa vegetação tem, para garantir a pureza e integridade da mistura gasosa conhecida como “ar”.

Lança, diariamente, bilhões de toneladas de poluentes à atmosfera, o que provoca um provavelmente irreversível processo de aumento de temperatura. Geleiras e mais geleiras, com centenas de milhares de anos de existência, começam a se derreter, aceleradamente, aumentando, logicamente, o nível das águas dos oceanos e pondo em risco milhões de quilômetros quadrados de solo costeiro, em que habitam 60% da população do Planeta.

Fosse um pouquinho mais inteligente, tivesse raciocínio prático e fosse menos arrogante, o homem se daria conta do que o explorador norueguês, Thor Heyerdahl, membro da famosíssima “Expedição Kon-tiki” (em que demonstrou que boa parte das ilhas do Pacífico foi povoada por autóctones sul-americanos) escreveu em um de seus livros: “Somos obra da natureza, seja com ajuda de Deus ou seja acreditando que Deus é a própria natureza”.

Tenho a intuição de que ainda não compreendemos, sequer minimamente, essa megaforça estupenda, que criou e vem criando o universo, cujas dimensões não cabem em nossa compreensão, e que chamamos, genericamente, de Deus. Não evoluímos, ainda, o suficiente para chegarmos a esse entendimento, já não digo total, mas no seu aspecto mais elementar.

Afinal, o maior dos gênios utiliza, no curto tempo de vida que tem, no máximo 5% do potencial do seu cérebro, se tanto. As pessoas comuns devem utilizar por volta de 2 a 3%. E os broncos, possivelmente, não mais do que 1%.

Quando a espécie puder utilizar melhor a capacidade de raciocínio de que é dotada, é possível (mesmo não havendo certeza), que conclua que o Ser, poderoso, infinito e eterno, que denomina de Deus, pode, perfeitamente, ser chamado de “Natureza”, sem que haja a menor impropriedade nessa denominação. Isso, óbvio, caso lhe reste tempo para essa evolução e não promova, de vez, o que já está em pleno andamento: um suicídio generalizado, levando consigo, para a morte, todos os seres vivos deste pequeno, mas tão surpreendentemente especial Planeta.

Boa leitura!

O Editor.



Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Misteriosa presença

* Por Pedro J. Bondaczuk


Chovia...Os pingos d’água na vidraça
esculpiam sombrio itinerário
de melancolia, saudade e solidão.
Lanças pontiagudas do silêncio
feriam-me, com crueldade,
e sangravam incômodas emoções.
Fantasmas esquivos e caricatos
rodopiavam, trôpegos, sem compasso,
em insólita, tresloucada ciranda,
em incoerentes coreografias.

Tenso, mas imóvel, eu ouvia
seus miúdos passos em surdina,
cautelosos e medindo distâncias
qual ritmado, rouco tambor.

Percebia seus passos esquivos,
miúdos, constantes, inflexíveis:
tum, tum, tum, em surdina.
Ela estava ali, camuflada,
espionando meu desespero
a auscultar minhas emoções.

Os pingos d’água na vidraça
compunham doloroso calidoscópio,
alternavam passado e presente,
imagens confusas da infância
e closes do meu gélido quarto vazio,
silencioso e escuro, onde
em espasmódica agonia,
ouvia os seus passos em surdina.

Campos ensolarados da Horizontina
natal e esta bruma espessa do presente.
Esta solidão opressiva e mofina
e a imagem de cada amigo e parente.

Não a via, na falange dos fantasmas,
só seus passos, ritmados, em surdina,
retumbavam, no silêncio sepulcral,
metodicamente medindo distâncias.

Em delírio, julguei vislumbrar,
o corvo, de mau agouro, de Poe,
a surdir, a grasnar, a murmurar.
Uma antiga, pia e ingente prece?
Velha e pungente canção de ninar?
Profundos e emotivos versos de amor?

Não! Ecoavam, confusos, no ar,
qual os pios de gaivotas no cais,
monótonos, constantes, sem cessar:
Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!”

Tenso, mas imóvel, eu ouvia,
da minha amada, os passos em surdina,
e censuras, e lamentos e quetais,
confundidos com os sombrios augúrios
do corvo, esquivo, negro, sombrio...
Ouvia, comovido, seus murmúrios,
os “nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!”,
os seus passos medidos, ritmados,
e os seus queixumes, suspiros e ais.

(Poema composto em Campinas, em 30 de outubro de 1974).




* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Sem pizza? Nem pensar!


* Por Marcelo Sguassábia


Existe pouquíssima coisa melhor que pizza, embora ninguém possa garantir que essas pouquíssimas coisas sejam, de fato, melhores que ela. Mas, se existirem mesmo, seriam tão poucas que caberiam no espaço de meia pizza brotinho. Com folga.

Não havendo pizza, no mínimo três quartos dos motoqueiros também não existiriam ou estariam fazendo outra coisa na vida, pois não teriam o que entregar.

Esse nosso mundinho, que já não é lá o melhor lugar da via láctea pra se viver, ficaria insuportável. Até o universo corporativo seria afetado. Os gráficos-pizza do powepoint precisariam se chamar gráficos-queijo, gráficos-torta ou coisa parecida. As esticadas de expediente, madrugada adentro, nas agências de propaganda e redações de jornal, resultariam compreensivelmente improdutivas sem a consoladora perspectiva da uma redonda crocante, de preferência com borda de catupiry ou cheddar, para tirar o estômago das costas e saudar o sol nascente.

A vida noturna de Sampa seria no mínimo um terço menor, ou três fatias, supondo como analogia uma pizza de dez pedaços. Estatísticas do ano de 2013 dão conta de um total de 15.000 restaurantes e 4.500 pizzarias na capital paulista. Vai gostar de pizza assim lá na Itália, ô meu…

Pizzas coroam as grandes conquistas, arrematam com perfeição os momentos mais esperados, são o ápice da satisfação humana. Exagero? De jeito nenhum. O camarada se mata de estudar para ser um bom aluno e entrar numa faculdade bacana. Faz a faculdade bacana para buscar um bom emprego. Consegue, com o bom emprego, a realização na forma de um carro moderninho, de uma parceira interessante, de uma casa com projeto de arquiteto. Dentro da casa, o quarto. No quarto, a cama. E depois daquela coisa boa que se faz na cama, o que vem na sequência? Pizza. Para repor as energias e cogitar uma segunda rodada. Não necessariamente de pizza.

Mas, se tivesse mesmo que inexistir a partir de amanhã, que eu tenha a chance de guardar hoje uma última fatia na geladeira para degustá-la fria e com a mussarela plastificada, regada a um generoso fio de azeite. Ô, tentação deliciosa. Até abaixo de zero a redonda não tem rival.

É preciso reconhecer que nem tudo, entretanto, estaria perdido num mundo desgraçadamente desprovido dessa maravilha. As maracutaias de Brasília, por exemplo, não mais acabariam nela. O que seria espetacular.


* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).



Tarde demais (II)


* Por Gustavo do Carmo


Pedro dá um caloroso abraço no pai, Seu Henrique. Eles se sentam à mesa. Ficam frente-a-frente. Henrique, um senhor de setenta anos, cabelos brancos e ralos, pele morena enrugada, principalmente nos olhos cansados, entrega uma carta amassada ao filho:

Chegou esta carta para você. Eu nem quis ler.

Mas ela está aberta.

Foi preciso abrir na revista para que eu pudesse te entregar.

Tudo bem, deixa pra lá.

Pedro lê a carta, escrita em alemão:

Berlim, 25 de novembro de 2007

O Deutsche Konsult avaliou a sua entrevista e comunica que você faz parte do perfil da nossa empresa. Já enviamos uma carta de recomendação para a embaixada do seu país. Compareça ao consulado alemão em seu estado para obter o visto de trabalho. No prazo de quinze dias enviaremos a passagem aérea para que possa vir à Berlim já como membro de nossa equipe com a remuneração líquida de oito mil euros. Seja bem-vindo!

Cordialmente
Franz Schneider
Gerente de Recursos Humanos - Deutsche Konsult


O que diz a carta, meu filho?

O que o senhor acha? Se eu não estivesse cumprindo pena por assassinato neste presídio eu daria pulos de alegria. Mas agora esta carta não tem mais validade nenhuma.

Ah, meu filho! Pra quê você foi espancar o gerente do banco até a morte?

Ele me humilhou muito quando me dispensou na entrevista, pai. Eu já estava cansado de não conseguir trabalhar em lugar nenhum. Não vou ficar mais chorando sobre o leite derramado. Matei e preciso cumprir a minha pena. Agora vai embora que o horário de visitas está acabando.

Fique com Deus, meu filho. Encerrou Seu Henrique resignado, deixando a penitenciária com lágrimas nos olhos. A carta da empresa de consultoria alemã caiu amarrotada sobre milhares de outras correspondências sem finalidade, juntando-se a papéis de bala, maços de cigarros vazios, restos de comida e excrementos físicos no latão de lixo do pátio central.


* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess - http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe -http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310



O caso do mendigo, de Lima Barreto


* Por Debora Bottcher


Como já escrevemos aqui, em 2017 a FLIP homenageia o escritor Lima Barreto, que era excepcional cronista. Seus escritos, para jornais e revistas da época, envolvem o leitor não só pela linguagem despojada, combativa e irônica – encontrada também em Triste fim de Policarpo Quaresma –, como também por continuarem extremamente atuais.
Escritas em sua maioria entre 1918 e 1922, revelam a sua revolta e insatisfação com as instituições políticas e sociais. Sem se exaltar, em tom de conversa familiar, ele denuncia aspectos cruéis da sociedade brasileira – o que mantém seus textos extremamente contemporâneos.
Na antologia Lima Barreto – Crônicas para Jovens, lançada pela Global Editora, estão presentes desde textos em que o autor discorre sobre problemas que a República – que nasceu durante sua juventude – não conseguiu solucionar – como o racismo e as desigualdades sociais -, até o problema da violência que acompanhava as partidas de futebol, num tempo em que o esporte ainda dava seus primeiros passos no Brasil. Sua preocupação com os efeitos perversos das reformas urbanas feitas no Rio de Janeiro nas duas primeiras décadas do século XX também pode ser visto em crônicas como “As enchentes”, O desastre”, “Megalomania” e O prefeito e o povo” e A revolta do mar”.
No prefácio de Gustavo Henrique Tuna, responsável pela seleção deste livro, ele avalia que as crônicas de Lima Barreto “indiciam sua independência de pensamento em relação aos poderes estabelecidos no país e são marcadas pela sua vontade incessante de se pronunciar a respeito das crueldades da vida cotidiana, sublinhando as injustiças sociais que atingiam as camadas mais humildes da população e zombando dos costumes de uma elite que, aos seus olhos, lhe parecia egoísta e constantemente cega às necessidades mais amplas do país”.

Selecionamos a crônica abaixo, uma mostra bem concreta da linguagem precisa – e muitas vezes repleta de humor – de Lima Barreto sobre as questões da sociedade – como o preconceito -, que continuam atuais até hoje. Boa leitura!


O caso do mendigo, Lima Barreto

Os jornais anunciaram, entre indignados e jocosos, que um mendigo, preso pela polícia, possuía em seu poder valores que montavam à respeitável quantia de seis contos e pouco.
Ouvi mesmo comentários cheios de raiva a tal respeito. O meu amigo X, que é o homem mais esmoler desta terra, declarou-me mesmo que não dará mais esmolas. E não foi só ele a indignar-se. Em casa de família de minhas relações, a dona da casa, senhora compassiva e boa, levou a tal ponto a sua indignação, que propunha se confiscasse o dinheiro ao cego que o ajuntou.
Não sei bem o que fez a polícia com o cego. Creio que fez o que o Código e as leis mandam; e, como sei pouco das leis e dos códigos, não, estou certo se ela praticou o alvitre lembrado pela dona da casa de que já falei.
O negócio fez-me pensar e, por pensar, é que cheguei a conclusões diametralmente opostas à opinião geral.
O mendigo não merece censuras, não deve ser perseguido, porque tem todas as justificativas a seu favor. Não há razão para indignação, nem tampouco para perseguição legal ao pobre homem.
Tem ele, em face dos costumes, direito ou não a esmolar? Vejam bem que eu não falo de leis; falo dos costumes. Não há quem não diga: sim. Embora a esmola tenha inimigos, e dos mais conspícuos, entre os quais, creio, está M. Bergeret, ela ainda continua a ser o único meio de manifestação da nossa bondade em face da miséria dos outros. Os séculos a consagraram; epenso, dada a nossa defeituosa organização social, ela tem grandes justificativas. Mas não é bem disso que eu quero falar. A minha questão é que, em face dos costumes, o homem tinha direito de esmolar. Isto está fora de dúvida.
Naturalmente ele já o fazia há muito tempo, e aquela respeitável quantia de seis contos talvez represente economias de dez ou vinte anos.
Há, pois, ainda esta condição a entender: o tempo em que aquele dinheiro foi junto. Se foi assim num prazo longo, suponhamos dez anos, a coisa é assim de assustar? Não é. Vamos adiante.
Quem seria esse cego antes de ser mendigo? Certamente um operário, um homem humilde, vivendo de pequenos vencimentos, tendo às vezes falta de trabalho; portanto, pelos seus hábitos anteriores de vida e mesmo pelos meios de que se servia para ganhá-la, estava habituado a economizar. É fácil de ver por quê. Os operários nem sempre têm serviço constante. A não ser os de grandes fábricas do Estado ou de particulares, os outros contam que, mais dias, menos dias, estarão sem trabalhar, portanto sem dinheiro; daí lhes vem a necessidade de economizar, para atender a essas épocas de crise.
Devia ser assim o tal cego, antes de o ser. Cegando, foi esmolar. No primeiro dia, com a falta de prática, o rendimento não foi grande; mas foi o suficiente para pagar um caldo no primeiro frege que encontrou, e uma esteira na mais sórdida das hospedarias da rua da Misericórdia. Esse primeiro dia teve outros iguais e seguidos; e o homem se habituou a comer com duzentos réis e a dormir com quatrocentos; temos, pois, o orçamento do mendigo feito: seiscentos réis (casa e comida) e, talvez, cem réis de café; são, portanto, setecentos réis por dia.
Roupa, certamente, não comprava: davam-lha. É bem de crer que assim fosse, porque bem sabemos de que maneira pródiga nós nos desfazemos dos velhos ternos.
Está, portanto, o mendigo fixado na despesa de setecentos réis por dia. Nem mais, nem menos; é o que ele gastava. Certamente não fumava e muito menos bebia, porque as exigências do ofício haviam de afastá-lo da “caninha”. Quem dá esmola a um pobre cheirando a cachaça? Ninguém.
Habituado a esse orçamento, o homenzinho foi se aperfeiçoando no ofício. Aprendeu a pedir mais dramaticamente, a aflautar melhor a voz; arranjou um cachorrinho, e o seu sucesso na profissão veio.
Já de há muito que ganhava mais do que precisava. Os níqueis caíam, e o que ele havia de fazer deles? Dar aos outros? Se ele era pobre, como podia fazer? Pôr fora? Não; dinheiro não se põe fora. Não pedir mais? Aí interveio uma outra consideração.
Estando habituado à previdência e à economia, o mendigo pensou lá consigo: há dias que vem muito; há dias que vem pouco, sendo assim, vou pedindo sempre, porque, pelos dias de muito, tiro os dias de nada. Guardou. Mas a quantia aumentava. No começo eram só vinte mil-réis; mas, em seguida foram quarenta, cinqüenta, cem. E isso em notas, frágeis papéis, capazes de se deteriorarem, de perderem o valor ao sabor de uma ordem administrativa, de que talvez não tivesse notícia, pois, era cego e não lia, portanto. Que fazer, em tal emergência, daquelas notas? Trocar em ouro? Pesava, e o tilintar especial dos soberanos, talvez atraísse malfeitores, ladrões. Só havia um caminho: trancafiar o dinheiro no banco. Foi o que ele fez. Estão aí um cego de juízo e um mendigo rico.
Feito o primeiro depósito, seguiram-se a este outros; e, aos poucos, como hábito é segunda natureza, ele foi encarando a mendicidade não mais como um humilhante imposto voluntário, taxado pelos miseráveis aos ricos e remediados; mas como uma profissão lucrativa, lícita e nada vergonhosa.
Continuou com o seu cãozinho, com a sua voz aflautada, com o seu ar dorido a pedir pelas avenidas, pelas ruas comerciais, pelas casas de famílias, um níquel para um pobre cego. Já não era mais pobre; o hábito e os preceitos da profissão não lhe permitiam que pedisse uma esmola para um cego rico.
O processo por que ele chegou a ajuntar a modesta fortuna de que falam os jornais, é tão natural, é tão simples, que, julgo eu, não há razão alguma para essa indignação das almas generosas.
Se ainda continuasse a ser operário, nós ficaríamos indignados se ele tivesse juntado o mesmo pecúlio? Não. Por que então ficamos agora?
É porque ele é mendigo, dirão. Mas é um engano. Ninguém mais que um mendigo tem necessidade de previdência. A esmola não é certa; está na dependência da generosidade dos homens, do seu estado moral psicológico. Há uns que só dão esmolas quando estão tristes, há outros que só dão quando estão alegres e assim por diante. Ora, quem tem de obter meios de renda de fonte tão incerta, deve ou não ser previdente e econômico?
Não julguem que faço apologia da mendicidade. Não só não faço como não a detrato.
Há ocasiões na vida que a gente pouco tem a escolher; às vezes mesmo nada tem a escolher, pois há um único caminho. É o caso do cego. Que é que ele havia de fazer? Guardar. Mendigar. E, desde que da sua mendicidade veio-lhe mais do que ele precisava, que devia o homem fazer? Positivamente, ele procedeu bem, perfeitamente de acordo com os preceitos sociais, com as regras da moralidade mais comezinha e atendeu às sentenças do Bom homem Ricardo, do falecido Benjamin Franklin.

As pessoas que se indignaram com o estado próspero da fortuna do cego, penso que não refletiram bem, mas, se o fizerem, hão de ver que o homem merecia figurar no Poder da vontade, do conhecidíssimo Smiles.

De resto, ele era espanhol, estrangeiro, e tinha por dever voltar rico. Um acidente qualquer tirou-lhe a vista, mas lhe ficou a obrigação de enriquecer. Era o que estava fazendo, quando a polícia foi perturbá-lo. Sinto muito; e são meus desejos que ele seja absolvido do delito que cometeu, volte à sua gloriosa Espanha, compre uma casa de campo, que tenha um pomar com oliveiras e a vinha generosa; e, se algum dia, no esmaecer do dia, a saudade lhe vier deste Rio de Janeiro, deste Brasil imenso e feio, agarre em uma moeda de cobre nacional e leia o ensinamento que o governo da República dá… aos outros, através dos seus vinténs: “A economia é a base da prosperidade”.

Bagatelas, 1911
* Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 


Dias inesperados


* Por Fabiana Teixeira


Escolha não fiz, não sei e não entendi talvez o destino quis isso pra mim! Uma praça, uma tarde de domingo e você surgiu.

De fato não compreendo... Não queria me permitir e sempre achei que estava muito bem, Sem climas românticos, sem expectativas inúteis e sem temer ser ab
andonada um dia. Sem planejar, nada para se preocupar, o coração estava seguro.

Alguns telefonemas, emails, por azar ou não
e já eras meu! Me deixei levar sem me questionar estava curiosa e tudo me surpreendeu tão agradavelmente…

Um jantar informal, tantos sorrisos, um beijo casual e tudo parecia abs
olutamente natural, Éramos um casal perfeito até o medo chegar e me invadir novamente.

Esse medo de amar, esse medo antigo que dorme e desperta comigo… Posso até sorrir ao lembrar como é bom amar. Queria am
á-lo e ao mesmo tempo esquecê-lo, por medo me afasto e torno a querê-lo.
 
Não sei o que será de mim, enquanto tenho tempo não irei pensar, irei me entregar
às sensações para entender esse meu sentir.

Às vezes o coração nos engana e tudo bem, existirá sempre um caminho e um motivo para seguir, Sozinho ou não, tudo depende da proporção daquilo que realmente queremos. O importante é não se demorar num abraço ingrato, num querer sem reciprocidade, sem motivos para sonhar.

A vida é tão breve e nunca sabemos ao certo o que sucederá o que irei perder ou ganhar.
Por isso mesmo, tenho que tentar e devo me doar para saber se esse amor é bom.



* Poetisa, escritora, produtora e publicitária