segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Há de chegar


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Há de chegar o dia,
em que ao barro
voltarei. 
Há de chegar o dia
em que meu corpo
se desmanchará
e quem sabe terei
a sorte de um bom
dia de chuva que
arrastará meus restos
para o solo e eu volte
flor...


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
Dor de amor


* Por Talis Andrade


É preciso amar-te muito
para permanecer capaz
de sofrer-te
M. Yourcenar

 
Ai o prazer
de quem padece
do mal de amor
 
O prazer
de quem sente
dor
pelo bem-querer
de sofrer
 
Sofrer por mim
não tanto assim
Sofrer por você
sim
Intensamente
sim



* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).


Pátria amada, Brasil

* Por Adriana Thiara

Fico com uma emoção estranha e prazerosa ao escutar o Hino. Que sentimento é esse que toma conta de todo brasileiro quando o Hino Nacional toca...? Que sentimento é esse que faz derramar lágrima, relembrar sonhos e fracassos pátrios...? Que sentimento é esse...?
Civismo!? O Hino Nacional é diferente... ele faz florescer a emoção, o arrepio, a lágrima, a liberdade, o patriotismo, a alma brasileira. Como será que isso acontece? Sei não.

É comum a criança aprender na escola a cantar o Hino. Elas aprendem a cantar tantos hinos! Mas o Nacional é diferente. Deve ser porque exalta que a nossa estória é mais bonita e contraditória que a que aprendemos nos livros de História. Que sentimento é esse que faz lembrar e esquecer; emergir idéias e aflorar derrotas ao toque de um Hino Nacional?

Tão perfeito em letra e música, texto e contexto, o Hino, comumente executado incompleto e ávido, faz mais que transpor um paradigma clássico de uma canção, faz-nos questionar sobre a vida...
Ô, vida! Cheia de corrupção, fome, doença, pobreza, ignorância, melancolia, vício, perversão, imoralidade e vergonha, que insiste em querer abafar esse tal sentimento sentido com tanta força, gozo e desespero... E é apenas um Hino Nacional.
E que Hino lindo, rico em história de lutas de uma aldeia que sonha ser global; sôfrego em anseios que insistem em não se realizar; abastado em patrimônio natural, cultural, imaterial e vivo; sedento pelo futuro brilhante que lhe é prometido.
O tempo passou, vai passando... Hoje, podemos não mais estar às margens plácidas, mas ainda somos um povo heróico de brado retumbante. Podemos não ver sol da Liberdade e seus raios fúlgidos pela coação da violência, mas ele há de brilhar no céu da Pátria a todo instante. Podemos não lutar belicamente por igualdade, mas vislumbramos grandes conquistas com braço forte.
Este desejo continua em nosso peito até a morte, porque os filhos desta Nação não fogem à luta. Ó Pátria amada, idolatrada, Terra adorada. Será esse o sentimento? Sei não.

Sei que do seio do brasileiro nasce esse sentimento que não tem nome, mas contagia um povo ao soar do “paranraram , paranraram, paranraranpam... Pátria amada, Brasil!”.




Seja feliz, tome remédios


* Por Frei Betto


A felicidade é um produto engarrafado que se adquire no supermercado da esquina? É o que sugere o neoliberalismo, criticado pelo clássico romance de Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo” (1932). A narrativa propõe construir uma sociedade saudável através da ingestão de medicamentos.

Aos deprimidos se distribui um narcótico intitulado “soma”, de modo a superarem seus sofrimentos e alcançar a felicidade pelo controle de suas emoções. Assim, a sociedade não estaria ameaçada por gente como o atirador de Las Vegas.

Huxley declarou mais tarde que a realidade havia confirmado muito de sua ficção. De fato, hoje a nossa subjetividade é controlada por medicamentos. São ingeridos comprimidos para dormir, acordar, ir ao banheiro, abrir o apetite, estimular o cérebro, fazer funcionar melhor as glândulas, reduzir o colesterol, emagrecer, adquirir vitalidade, obter energia etc. O que explica encontrar uma farmácia em cada esquina e, quase sempre, repleta de consumidores.

O neoliberalismo rechaça a nossa condição de seres pensantes e cidadãos. Seu paradigma se resume na sociedade consumista. A felicidade, adverte o sistema, consiste em comprar, comprar, comprar. Fora do mercado não há salvação. E dentro dele feliz é quem sabe empreender com sucesso, manter-se perenemente jovem, brilhar aos olhos alheios. A receita está prescrita nos livros de autoajuda que encabeçam a lista da biblioterapia.

Se você não corresponde ao figurino neoliberal é porque sofre de algum transtorno. As doenças estão em moda. Respiramos a cultura da medicalização. Não nos perguntamos por que há tantas enfermidades e enfermos. Esta indagação não convém à indústria farmacêutica nem ao sistema cujo objetivo primordial é a apropriação privada da riqueza.

Estão em moda a síndrome de pânico e o transtorno bipolar. Já em 1985, Freud havia diagnosticado a síndrome de pânico sob o nome de neurose de angústia. O transtorno bipolar era conhecido como psicose maníaco-depressiva. Muitas pessoas sofrem, de fato, dessas enfermidades, e precisam ser tratadas e medicadas. Há profissionais que se sentem afetados por elas devido à cultura excessivamente competitiva e à exigência de demonstrar altíssimos rendimentos no trabalho segundo os atléticos parâmetros do mercado.

Em relação às crianças se constata o aumento do Transtorno por Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Ora, é preciso cuidado no diagnóstico. Hiperatividade e impulsividade são características da infância, às vezes rebaixadas à categoria de transtorno neurobiológico, de desordem do cérebro. Submeta seu filho a um diagnóstico precoce. 

Quando um suposto diagnóstico científico arvora-se em quantificar nosso grau de tristeza e frustração, de hiperatividade e alegria, é sinal de que não somos nós os doentes, e sim a sociedade que, submissa ao paradigma do mercado, pretende reduzir todos nós a meros objetos mecânicos, cujos funcionamentos podem ser decompostos em suas diferenças peças facilmente azeitadas por quilos de medicamentos.

* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.



Pra que pressa


* Por Alcides Buss


É lenta a noite
no coração da floresta.

Sem luz elétrica,
sem tevê, sem telefone,
o tempo volta
a ser o que era.

Dentro dele se formam
os sentidos
de que são feitas as coisas.

Amar é juntar-se
às palavras.

Sonhar é ir-se
com elas.

Pra que pressa?
Tudo que precisa
acontece na hora certa.



* Professor universitário e poeta

domingo, 22 de outubro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, seis meses e vinte e cinco dias de existência.


Leia nesta edição:

Editorial – Amigos e ocasiões.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Ânsia de compartilhar”.

Coluna Direto do Arquivo – Ruth Barros, crônica, “A guerra dos sexos”.

Coluna Clássicos – Alberto Venâncio Filho, ensaio, “A presença do bacharel na vida brasileira”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freirei, artigo, “Piabódromo: cadê os três caras-pintadas de Barcelos?”.

Coluna Porta Aberta – Pedro du Bois, poema, “Tragédias”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Amigos e ocasiões


A amizade é um fenômeno mal compreendido e, por isso, gera inúmeros equívocos e decepções. Muitos, por exemplo, que acham que têm “um milhão de amigos”, não raro não têm nenhum. Outros tantos, que julgam não contar com nenhum, os têm em profusão.

Esse sentimento benigno é, e deve ser sempre, absolutamente espontâneo. Não se prende a qualquer compromisso, regra ou obrigação. Nasce à nossa revelia, como o sol num dia de céu azul de primavera, como as chuvas de verão, como as quatro estações do ano e assim por diante. E quando acaba, o faz da mesma forma. Ou seja, espontaneamente, de mansinho, sem nenhum alarde ou drama e sem deixar ressentimentos no seu rastro.

Não somos amigos de alguém porque o escolhemos ou porque desejemos isso. E a recíproca, claro, é verdadeira. Não se trata de ato de vontade, de escolha, de apuração, em outra pessoa, de virtudes que julguemos que ela possua (e que raramente, de fato, tem).

Há quem confunda, amiúde, amizade com admiração. Não são, todavia, coisas iguais. Ao contrário, são muito distintas e com características bem definidas. Posso, por exemplo, admirar profundamente determinada pessoa e, no entanto... não ter a menor afinidade com ela e não desejar nenhum tipo de relacionamento com a mesma. Ou posso ser admirado por ela, mas “nossos santos” não se cruzarem.

Acho, por isso, uma bobagem sem tamanho a tentativa de alguns de “testarem” amizades. Se elas precisarem de algum teste para serem comprovadas é porque não existem, nunca existiram e jamais existirão. Por que? Porque estará rompida sua característica fundamental: a irrestrita confiança mútua. Quem testa é porque não confia. E quem não confia em mim (mereça eu confiança ou não), não é e jamais pode ser meu amigo. E ponto final.

O site de relacionamentos Orkut ensinou-me muitas coisas a esse propósito. Ajudou-me, por exemplo, a distinguir quem me dedicava, de fato, genuína amizade e quem apenas desejava um “correspondente” assíduo, sofisticado, que escrevesse maravilhosas (e hipócritas) mensagens laudatórias, que lhe massageassem o ego. E O Facebook só comprovou e consolidou essas lições.

Felizmente, pelo menos no meu círculo de amigos, essas pessoas são poucas. Os que queriam um “admirador”, e não um amigo, romperam imediatamente esse vínculo informal que tinham comigo (foram em torno de duzentos nos últimos quarenta dias os que agiram assim). Classificaram-me de “fantasma” (Deus do céu, será que morri e esqueceram de me avisar?!) e (usando um termo típico de informática) “me deletaram”.

Azar deles! Não entenderam que, para se “ter” amigos, é preciso, antes de tudo, “ser” amigo. Claro que nunca foram e que jamais serão. Devo ficar aflito por isso? De forma alguma! Essas pessoas infringiram uma das únicas e mais importantes regras informais da amizade: a da não exigência. Não se pode, em circunstância alguma, exigir o que quer que seja de alguém que achamos que seja nosso amigo. E vice-versa. Tudo tem que ser sempre natural, espontâneo, sem interesses e nem testes e muito menos obrigações prévias.
Li, há já certo tempo, pitoresco texto de Mário de Andrade a esse propósito, que partilho com você, paciente leitor. O autor de “Macunaíma” afirma, em determinado trecho: “Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhecem os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras”.

Só não concordo com Mário de Andrade quanto ao dia da semana de sua preferência. No mais... Da minha parte, desde os tempos de namoro (e isso já faz muuuuito tempo), prefiro as quintas-feiras. Era nelas que passava momentos inolvidáveis com minha eterna amada (hoje minha esposa), de olho nos sábados e domingos. Eram esses os três dias que, na época, os pais consideravam “adequados” para se namorar. E sempre sob sua diligente supervisão.

Eram outros tempos, claro. Não havia o tal do “ficar”, tão do gosto da mocidade de hoje. Eram, isso sim, namoros “comportados”, vigiados zelosamente por alguém da família, via de regra algum irmão mais novo da namorada (que subornávamos desavergonhadamente, para que nos desse trégua e nos deixasse a sós por alguns preciosos minutinhos que fossem).

Hoje, logo no primeiro encontro, após trocar não mais do que meia dúzia de palavras, lá vai o casal para algum motel, gozar das delícias do sexo. Ou seja, “a entrada” da refeição passou a ser substituída: é, agora, o próprio banquete (e vice-versa).

Os namorados romperam o que havia de melhor no namoro, que era o mistério, a imaginação, a mútua conquista, tarefa que exigia paciência que se rivalizasse com a do patriarca bíblico Jó. Mas quando se chegava aos finalmente... Era um delírio! Era o transporte do céu para a terra!

Naquele tempo, tocar, mesmo que de leve, como que sem querer, os seios da garota, era uma façanha heroica! E o beijo... Nem é bom falar! A garotada, hoje, ri, com ar de superioridade, quando isso vem à baila. Mal sabe o que está perdendo com sua afoiteza! Por isso, por causa daquele exercício de controle e de paciência que mantínhamos (ou também por isso), os casamentos que resultavam desses namoros eram para a vida toda. Nem todos, claro. Mas boa parte era. Hoje...

Bem, o assunto tratado não era bem este. Mas como todo conto exige novo ponto... E essa história de que é nas grandes ocasiões que se conhecem os amigos é coisa de quem, de fato, não tem a mínima noção do que são amizades. Como Mário de Andrade, portanto, também tenho horror às grandes ocasiões. Mas continuo preferindo as quintas-feiras…

Boa leitura!

O Editor.


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