segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, oito meses e vinte e um dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Cultivo da personalidade.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “A menina e o vento”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “Da beleza imperceptível”.

Coluna Direto do Arquivo – Ornela França, crônica, “Primeira lição.

Coluna Porta AbertaLeonardo Boff, artigo, “Guerras cibernéticas: novas formas de guerras”.

Coluna Porta AbertaFrei Betto, artigo, “Fazer das conquistas presentes”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Fim da linha


Você é capaz, caro leitor, de identificar o autor deste texto?: “A esperança não será a prova de um sentido oculto da existência, uma coisa que merece que se lute por ela?”. E deste?: “Creio que a verdade é perfeita para a matemática, a química, a filosofia, mas não para a vida. Na vida contam mais a ilusão, a imaginação, o desejo e a esperança”. Ou deste outro?: “A vaidade é um elemento tão sutil da alma humana que a encontramos onde menos se espera, ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade”.

Tratam-se de ideias expressas com coragem e com meridiana clareza por alguém afeito a perscrutar a alma humana para compreender o que move o homem, seus anseios, suas angústias, suas dúvidas e contradições. São de Ernesto Sábato, um dos maiores escritores argentinos de todos os tempos – e olhem que a Argentina os produziu e produz em profusão – senão da América Latina e do mundo. E não exagero.

Pois bem, esse intelectual, esse humanista, este libertário convicto chegou ao “fim da linha”, em 30 de abril de 2011, após memorável trajetória literária e sobretudo de vida, de 99 anos. Faltaram, pois, 55 dias para tornar-se centenário, ele que nasceu em 24 de junho de 1911, na cidadezinha de Rojas, na província de Buenos Aires.

Apesar de legar à posteridade uma sólida obra literária, de cerca de 40 livros, Sábato não se constituiu, propriamente, em unanimidade, nem em seu país e nem fora dele. Talvez a razão seja que os que lhe fazem restrições não leram com a devida atenção (ou sequer leram) o que escreveu. Isso acontece com maior frequência do que se possa supor.

Talvez os que não o apreciam tenham interpretado de forma equivocada suas ideias, embora ele as tenha exposto com clareza e sem nenhuma ambiguidade. Por que não?. Sabe-se lá, pois, qual a razão de não apreciá-lo! Da minha parte, coloco-o no mesmo patamar de Jorge Luís Borges, que tenho como meu “guru” espiritual, cujas ideias e colocações exerceram e exercem poderosa influência sobre o que penso e o que escrevo. Ademais, como costumava dizer o saudoso jornalista Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”.

O primeiro livro de Ernesto Sábato foi uma coletânea de artigos de cunho filosófico, intitulado “Nós e o universo”, publicado em 1945. A tônica dessa obra é a crítica da aparente neutralidade moral da ciência. Nela o autor alerta para a desumanização que já estava em andamento nas sociedades tecnológicas.

Seu primeiro romance, publicado em 1948, foi “O túnel”. Nele chama a atenção o esmero na composição dos personagens. Sua obra abrange diversos gêneros da literatura, como contos, romances, novelas e ensaios, com destaque em todos eles.

O curioso é que Ernesto Sábato nem cogitava em ser escritor quando ingressou na universidade. Pretendia ser cientista. Tanto que seu primeiro título acadêmico foi um doutorado em Física, concluído em 1938, na Universidade Nacional de La Plata. Quando criticou, portanto, a adoração da ciência, como se ela fosse um “bezerro de ouro” da atualidade, sabia o que estava dizendo. Tinha pleno conhecimento de causa.

Ernesto Sábato teve que esperar 16 anos para obter o reconhecimento internacional, embora jamais tenha sido cogitado para o Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo. Foi reconhecido como um dos maiores escritores do seu tempo só em 1961, com o livro “Sobre heróis e tumbas”. E 13 anos depois, conseguiu a consagração, com um outro romance: “Abandon, o exterminador”.

Se não ganhou o Nobel, conquistou, pelo menos, a maior premiação concedida a escritores de língua espanhola, o Prêmio Cervantes de Literatura, em 1984. Esse ano, com certeza, ele deve ter guardado na memória como sendo muito especial e por uma série de razões. Uma delas foi o convite que recebeu para presidir seleto e ilustre grupo de personalidades e intelectuais que compunham a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, que publicou, ao cabo de seus trabalhos, o memorável relatório “Nunca mais”, com descrições e depoimentos das vítimas e sobreviventes da ditadura militar no período de 1976 a 1983, expondo, em toda a sua crueza, os crimes cruéis, o absurdo genocídio perpetrado contra seu próprio povo pelos ditadores fardados.

Sempre me questionei se viver além da média das outras pessoas é prêmio ou severo castigo. Sou levado, infelizmente, a achar que seja a segunda hipótese. O motivo? Creio que sequer é preciso expor. A visão, por exemplo, não tarda a ficar comprometida e em alguns casos, também a audição. A locomoção transforma-se num pesadelo, drama perigoso, face ao risco constante de quedas, que tendem a trazer duras consequências em termos de sofrimento, quer para a pessoa idosa, quer para a sua família. Pior é quando a memória é afetada e o indivíduo não consegue mais reconhecer nem mesmo os entes mais queridos.

Os últimos anos de vida de Ernesto Sábato foram dos mais sofridos e aflitivos. Primeiro, foi acometido de uma doença nos olhos e, por ordem médica, acabou proibido de fazer o que mais gostava: de ler e de escrever. Imaginem o que isso significa para um escritor! Jorge Luís Borges passou por isso e de forma até pior do que Sábato: ficou cego. Ainda assim, continuou produzindo. Seus “olhos” e suas “mãos”, porém, tiveram um nome: Maria Kodama, a fiel secretária, que fez com que sua vida fosse quase normal até a morte, ocorrida (se não me falha a memória) em 1984, na Suíça.

Sábato, porém, acatou a determinação médica e deixou de ler e de escrever. Mas não deixou de fazer arte, pelo menos enquanto pôde. Dedicou-se aos pincéis e palhetas, ou seja, à pintura. Nos últimos tempos, contudo, parecia ausente do mundo, imerso em mutismo e solidão. Passava semanas, quando não meses, sem falar com ninguém, como que imerso em lembranças. Se pensava em algo ou não, ninguém saberia dizer. Fragilizado, como estava, bastou uma simples bronquite para determinar o seu “fim de linha”.

Nesses momentos de mutismo, vendo a morte se aproximar, é muito provável que tenha constatado o quão verdadeira foi a sua afirmação, anos antes, a propósito da solidão: “Estamos próximos, mas estamos a uma distância incomensurável; estamos próximos, mas estamos sós”. E não estamos?!

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A menina e o vento

* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral

Hoje é dia de vento,
vou correr para a parte
mais alta do morro
e abrir os braços e...esquecer.

Esquecer do olhar triste
de minhas irmãs, que perderam
seu norte.
Esquecer da dor e das lágrimas

Esquecer
dos pensamentos
lacrados em minha memória
esquecer que ela se foi...


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário



Da beleza imperceptível


* Por Talis Andrade

Amo as mulheres que veneram
a beleza das deusas
Repugna a formosura
das coquetes
que todos tocam
com as mãos andejas

Amo o encanto a magia
da imperceptível beleza
que muitas vezes
só uma mulher
pressente e almeja

(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).




Primeira lição
* Por Ornela França
Atrás de quem estaria aquele 'a' com de cor forte e densidade neutra? Atrás de quem? A certeza é que ele não parava de dançar na folha rosa e eu me diverti. Olhei calmamente aquela criatura que por nome de vogal podemos identificar, depois de encaixar os óculos onde são realmente úteis e, dessa maneira, pude ver que não era apenas um. Lá estavam os dois 'as' que naquela situação, em minúsculas, parecia um só.
Só então pude ver que os gêmeos dançantes estavam abraçados pelo 'n' da minha mãe. O que esse ‘n’ fazia ali? Antes era apenas um ‘a’ dançante. A música parou, ou pelo menos, o ‘a’ acomodou-se junto daquele ‘n’. De certa fora o ‘n’ era a desculpa para separar e unir os dois ‘as’.
Separando-os dava a possibilidade de formar novas palavras, unindo-se descobri aquele nome cheio de poesia e música. Era sim o nome dela. ana, em fôrma e caixa baixa, me mostrando pela primeira vez atrás de lentes oculares um nome maternal e divertido.
Descobri sim como era que chamavam minha mãe, nasal e carinhosamente. Assim ganhei o meu primeiro palíndromo. Ana de qualquer maneira foi o início de tudo, justo quando abri os olhos para ver o mundo. Palindromicamente falando, ana nasceu depois das lentes dos novos óculos que ganhei. E nem parece que perdi tanto pois ainda lembro daquele ‘a’ se mexendo e remexendo na folha rosa com letra mini, querendo dizer que não queria ficar só por ali. Meu ‘a’ aquietou-se depois disso, mas disse que não quer ficar só por aqui. Não custa se enrolar com outras letras para me divertir novamente. Vai lá, ‘a’.

* Jornalista
Guerras cibernéticas: novas formas de guerras

Por Leonardo Boff

Conhecemos as formas clássicas de guerra, primeiro entre exércitos e após Hitler (com a sua “totaler Krieg”= guerra total) de povos contra povos. Inventaram-se bombas nucleares tão potentes que podem destruir toda a vida. Diz-se que eram armas de dissuasão. Não importa. Quem tem, por primeiro a iniciativa, ganha a guerra que duraria poucos minutos. A questão é   que elas são tão letais que podem matar a todos, inclusive aqueles primeiros que as lançaram. Viraram armas de espantalho. Mas cuidado, a segurança nunca é total e não é impossível que algumas delas explodam sob a ação de hackers, pondo em risco grande parte da humanidade.

Ultimamente inventou-se outra forma de guerra que a maioria sequer se dá conta: a guerra cibernética, chamada também de guerra informática, guerra digital e ciberguerra.
Ela tem um pano de fundo que merece ser considerado: há um excesso  de acumulação de capital a ponto de as grandes corporações não saberem onde aplicá-lo. A agência de políticas de desenvolvimento, Oxfam, presente em 94 países e assessorada por cientistas do MIT nos forneceu neste ano de 2017 os seguintes dados: 1% da humanidade controla mais da metade da riqueza do mundo. Os 20%mais ricos possuem 94.5% dessa riqueza, enquanto 80% deve se conformar com 5,5%. Eis uma profunda desigualdade que traduzida eticamente significa perversa injustiça.

Essa demasiada concentração não vê sentido em aplicações produtivas porque o mercado empobrecido não tem condições de absorver seus produtos. Ou continuam na ciranda especulativa agravando o problema ou encontram outras saídas rentáveis às aplicações. Vários analistas, como  William Robinson, da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, que  publicou brilhante estudo sobre o tema mas também Nouriel Rubini, o que previu o debâcle de 2007-2008, entre outros. Eles nos referem duas saídas para o capital ultraconcentrado: investir na militarização comandada pelo Estado, construção de novas armas nucleares ou investir em guerras locais, guerra contra as drogas, na construção de muros fronteiriços, na invenção de novos aparatos policiais e militares.

Ou então fazer grandes investimentos em tecnologia, robotização, automação massiva e digitalização cobrindo, se possível, todos os âmbitos da vida. Se em 1980 o investimento era de 65 bilhões agora passou para 654 bilhões. Neste investimento estão previstos serviços de controle das populações, verdadeiro Estado policial e as guerras cibernéticas.

Sobre isso, convém detalhar um pouco a análise. Na guerra cibernética não se usam armas físicas mas o campo cibernético com a utilização de vírus e hackers sofisticados que entram nas redes digitais do inimigo para anular e eventualmente danificar os sistemas informáticos. Os principais objetivos são geralmente os bancos,  os sistemas financeiros ou militares e todo o sistema de comunicação. Os combatentes desta guerra são especialistas em informática e telecomunicações.

Este tipo de guerra foi testado várias vezes; já em 1999 na guerra do Kosovo, onde hackers atacaram até o porta-aviões norte-americano. Talvez o mais conhecido foi o ataque à Estônia no dia 26 de abril de 2007. O país se gabava de possuir quase todos os serviços do país informatizados e digitalizados. Um pequeno incidente da derrubada da estátua de um soldado russo, símbolo da conquista russa na última guerra, por civis da Estônia serviu de motivo para a Rússia dirigir um ataque cibernético que paralisou praticamente todo o país: os transportes, as comunicações, os serviços bancários, o serviço de luz e água. Nos dias seguintes desapareceram os sites do Parlamento, das Universidades e dos principais jornais. As intervenções vinham de dez mil computadores, distribuídos em várias partes do mundo. O chefe de Estado da Estônia declarou acertadamente:”nós vivíamos no futuro: bancos online, notícias online, textos online, shoppings online; a total digitalização fez tudo mais rápido e mais fácil, mas também criou a possibilidade de, em segundos, nos fazer regredir séculos”.

Bem conhecido é o vírus Stuxnet, possivelmente produzido por Israel e pelos USA que conseguiu entrar no funcionamento das usinas de enriquecimento de urânio do Irã, aumentando-lhe a velocidade a ponto de racharem e impossibilitaram seu funcionamento.

O risco maior da guerra cibernética é que pode ser conduzida por grupos terroristas como o ISIS ou por um outro país, paralisando toda infraestrutura, dos aeroportos, dos transportes, das comunicações, dos serviços de água e luz e mesmo romper os segredos de aparatos de segurança de armas letais e fazê-las disparar ou inutilizá-las. E tudo isso a partir de centenas de computadores que funcionam a partir de diferentes partes do planeta, impossibilitando identificar seu lugar e assim enfrentá-las.

Estamos, portanto, face a riscos inomináveis, fruto da razão enlouquecida. Só uma humanidade que ama a vida e se une para preservá-la nos poderá salvar.

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.



Fazer das conquistas presentes


* Por Frei Betto


O inconsciente histórico brasileiro é repleto de mitos. Como o brasileiro “cordial”, numa interpretação equivocada do que assinalou Sérgio Buarque de Hollanda. Cordial sim, de cordis, coração, por agir mais movido pelo coração do que pela razão. O que explica o paradoxo dos defensores “da família” serem os mesmos que incentivam a homofobia, a exclusão e os preconceitos.

Alardeia-se que somos um povo pacífico, no esforço de favorecer o memoricídio que encobre as inúmeras revoltas que marcam a história do Brasil. O fracasso da tentativa de escravizar nossos indígenas é atribuído à benevolência dos portugueses. Pouco se considera a própria resistência indígena.

A abolição oficial da escravatura em 1888 teria sido um presente da generosa princesa Isabel. Ora, basta um pouco mais de atenção à história para constatar como foi árdua a luta dos negros escravizados, dos quilombos e das forças políticas abolicionistas que se posicionaram contra o pelourinho.

A República teria sido dádiva dos militares, assim como mais tarde Getúlio Vargas teria nos dado a legislação trabalhista que alforriou o nosso operariado do regime de semiescravidão. Assim, silenciam-se acirradas lutas, desde a segunda metade do século XIX, de anarquistas, comunistas e sindicalistas.

A ditadura militar teria concedido aos idosos da zona rural a aposentadoria compulsória. E pouco se fala das décadas de lutas pela reforma agrária e do papel libertário das Ligas Camponesas.

Os governos Lula teriam implantado programas sociais, como o combate à fome, a demarcação de terras indígenas, os benefícios a idosos, estudantes, pessoas portadoras de deficiências etc.

Ora, o PT, fundado em 1980, resultou da confluência das Comunidades Eclesiais de Base, do sindicalismo combativo e dos remanescentes das esquerdas que enfrentaram a ditadura. Portanto, eleito presidente em 2002, Lula simbolizava o resultado de pelo menos 40 anos de lutas populares.

Na história não há direitos regalados e sim conquistados. O que prevalece, entretanto, é a versão de quem está por cima. Versão que visa a encobrir a crueldade da repressão, os crimes hediondos das forças policiais e militares, a chibata, o pau-de-arara, o choque elétrico, as greves e mobilizações, enfim, rios de sangue derramados para que, ao menos na letra da lei, fossem conquistados direitos mínimos de cidadania. Quando serão abertos os arquivos da Guerra do Paraguai?

A versão do poder impregna o inconsciente coletivo e tende a imobilizar. Sobretudo quando o governo agarra o violino com a mão esquerda e toca com a direita. As mobilizações arrefecem, embora a insatisfação se amplie.

O Brasil se parece ao Titanic. Embora à deriva, muitos acreditam que ele aportará em solo firme em 2018. A orquestra do “vai melhorar” continua a soar aos nossos ouvidos, embora a água já nos atinja a cintura…

Duas lições aprendi em minha passagem pelo Planalto: o poder não muda ninguém, faz com que a pessoa se revele. E governo é como feijão, só funciona na panela de pressão.


* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.