segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, dez meses e vinte e dois dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Magia da leitura.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araújo Nonato do Amaral, poema, “Vento.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “No corredor da morte”.

Coluna Direto do Arquivo – Zuca Sardana, poema, “Levando a vida.

Coluna Porta AbertaZemaria Pinto, poema, Gênese”.

Coluna Direto do Arquivo – Willian Novaes, artigo, “Os coxinhas da periferia”.


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CITAÇÃO DO DIA:

Monstros inocentes 

A vida pulula de monstros inocentes, - Senhor, meu Deus! vós, o Criador, vós, o Mestre; vós, que fizestes a Lei e a Liberdade; vós, o soberano, que dais o livre-arbítrio. vós, o juiz, que perdoais; vós, que sois cheio de motivos e de causas, e que talvez lançastes em meu espírito o gosto do horror para converter o meu coração, como a cura na extremidade de uma lâmina; Senhor, tende piedade, tende piedade dos loucos e das loucas! Ó Criador! podem existir monstros aos olhos do Único que sabe por que eles existem, como foram feitos e como poderiam não ter sido feitos?

(Charles Baudelaire, "A Senhorita Bisturi", livro: "Pequenos Poemas em Prosa").



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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Editorial - Magia da leitura


Magia da leitura


A invenção da escrita foi, se não o maior, um dos maiores avanços do bicho homem. Possibilitou que descobertas, experiências, conhecimentos e sentimentos de uma geração não se perdessem no tempo quando ela passasse e se extinguisse, mas se perpetuasse e ficasse ao alcance da posteridade, milênios afora. Constitui-se, pois, em fator inigualável de progresso, não apenas o espiritual, mas também o material.

Durante milênios, o acesso à leitura, e consequentemente à escrita, foi privilégio de poucos, pouquíssimos indivíduos mundo afora. Isso retardou, sem dúvida, o progresso da humanidade. Até boa parte do século XX, o número de analfabetos no mundo era imenso, salvo em um ou outro país, não por acaso os mais prósperos. A difusão da leitura, portanto, é fenômeno recente, recentíssimo, coincidindo com a extraordinária evolução humana, notadamente no que diz respeito à ciência e à tecnologia.

Mas o progresso material (e também o espiritual) deixou à margem, ainda, nesta era da comunicação total, que transformou o Planeta na “aldeia global” preconizada pelo canadense Marshall McLuhan, cerca de dois terços da humanidade neste final da segunda década do terceiro milênio da Era Cristã.

Desse contingente enorme, de mais de 5 bilhões de seres humanos, perto de um quinto vive uma situação muito pior (quase desesperadora) do que os outros. Está com as chances de mudar os rumos de suas vidas virtualmente bloqueadas, por se encontrar imerso nas trevas do desconhecimento quase absoluto.

Sua cabeça ainda permanece numa fase de civilização anterior à invenção dessa maravilha das maravilhas, que é o alfabeto. Referimo-nos ao um bilhão de indivíduos analfabetos, que por falta de um talento maior, que não seja o de utilizar somente a força de seus músculos, estão condenados a uma vida de privações, de incertezas e de angústias, em posição subalterna quer no campo profissional quer na escala social.

Estes, todavia, não sabem ler em decorrência de circunstâncias perversas e aziagas, alheias à sua vontade. Não leem e não escrevem não por desastrosa decisão pessoal, mas porque não tiveram (e não têm) a oportunidade de aprender. Há, todavia, um tipo de analfabetismo mais estranho e contundente: o dos que, sabendo ler, não leem. A estes Mário Quintana classifica, numa primorosa crônica, de “os verdadeiros analfabetos”. E não são?

Essa sua opção priva-os de maravilhas imensas, ditadas pela magia da leitura. Por que? É uma constatação tão óbvia, que me recuso a explicitá-la. Recorro, porém, ao romancista chileno Roberto Bolaño, que no romance “2666” (caudaloso livro, de 852 páginas, classificado pelos críticos literários do jornal “Folha de S. Paulo” como um dos dez melhores lançamentos editoriais de 2010), coloca, na boca de um dos personagens, esta pérola, a propósito da leitura: “Ler é como pensar, como rezar, como conversar com um amigo, como expor suas ideias, como ouvir as ideias dos outros, como ouvir música (sim, sim), como contemplar uma paisagem, como dar um passeio pela praia”.

Exagero? Longe disso. Afinal, como acentuou o ensaísta norte-americano Richard Steele, “a leitura é para a mente o que o exercício é para o corpo”. Ou seja, é a maneira de robustecê-la e conservar sua sanidade. É o jeito de ampliar seu potencial. William Wordsworth atribui aos livros papel semelhante ao dos sonhos (a respeito dos quais escrevi recentemente). Mas vê certa vantagem nos segundos. Concordo com ele.

Vocês já imaginaram se, numa dessas catástrofes tão possíveis, fossem destruídos todos os livros já escritos e publicados no Planeta? Pior, e se ocorresse súbita amnésia coletiva, que fizesse com que todos, absolutamente todos os seres humanos, se esquecessem dos respectivos alfabetos, de suas gramáticas e técnicas da escrita? Em questão de dias, a humanidade retroagiria milênios, quem sabe às cavernas primitivas. Não quero nem pensar na mais remota possibilidade desse pesadelo se concretizar. Seria avassalador e catastrófico.

Jorge Luís Borges aventa uma hipótese menos radical do que a minha, mas ainda assim desastrosa: “Fala-se do desaparecimento ou da extinção do livro. Creio que isto é impossível. Dir-se-á: que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco? A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido; um disco é ouvido, igualmente, para ser esquecido – é algo mecânico e, portanto, frívolo. O livro é lido para eternizar a memória”.

Numa outra citação, esta no prólogo da primeira edição de uma de suas obras mais geniais, a “História universal da infâmia”, Borges acentua: “Ler, além do mais, é uma atividade posterior à de escrever, é mais resignada, mais atenciosa, mais intelectual”. Mais adiante, arremata: “Às vezes acredito que os bons leitores são cisnes ainda mais negros e singulares que os bons autores”. Eu também, mestre, eu também.

Portanto, estimular as pessoas a lerem e a formarem esse saudável (e delicioso) hábito, é prestar-lhes supremo favor. É descortinar-lhes um mundo infinito de maravilhas. É, até, em alguns casos, preencher-lhe a solidão e fazer com que se sintam sempre em excelente e nobre companhia.

Quantas pessoas mundo afora, por exemplo, não se consolam, não com um livro, mas até com uma carta de algum ente querido e distante, lendo-a, relendo-a, tornando a lê-la, a relê-la dezenas, centenas, quiçá milhares de vezes?! Que magnífica magia é esta da leitura! Que privilégio nós, desta geração, temos, de contar com a oportunidade de acesso a este meio tão prático e relativamente barato de nos instruir, sonhar, crescer e evoluir!


Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Vento - Núbia Araújo Nonato do Amaral


Vento


* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral


Há vento que leva.
Há vento que traz.
Há vento que semeia, 
outros espalham no tempo,
pedaços do que poderia ter sido.
No meu tanto de vento
recolhi sementes, e no meu
pedaço do que poderia ter sido,
que parece nome de flor,
floresceu um bem querer,
com pitadas de amor.
A muda já deu galho,
deu folha e até flor.


P.S: Dedico este poema aos meus irmãos, trabalhadores desta Seara abençoada que nos permite através da solidariedade e amor ao próximo, caminharmos juntos ao nosso Mestre Jesus Cristo.


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário.


No corredor da morte - Talis Andrade


No corredor da morte

* Por Talis Andrade

Não há neste mundo
uma palavra de compaixão
para os que sofrem
Todos sabem quanto dói
o abandono a solidão
o desamor. Todos sabem
Todos temem a morte

Todos se afastam dos velhos
dos moribundos
Todos sentem
do corpo exânime
o odor nauseabundo


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



Levando a vida - Zuca Sardana


Levando a vida

* Por Zuca Sardana
 
No andar de cima
a antiga bailarina
debruçada na janela
batia de vassoura
no tapete persa
meio furado.

No andar de baixo
o mágico de mafuá
tirava da cartola
um ovo duro
um pratinho de azeitonas
umas empadas
e o jornal do dia
onde ele lia
aquelas mesmas notícias
de dias atrás.

* Poeta, diplomata e desenhista





Gênese - Zemaria Pinto


Gênese


* Por Zemaria Pinto


um poema se projeta 
- entre sapos, entre grilos - 
recortando a madrugada: 


com o fio da navalha 
costuro as sombras do chão 
- viver é imenso 


de pedras teço meu canto 
recolhido, emimesmado 
num redemoinho de enganos 


(canto em arco arquitetado: 
seta que se completa 
no atingimento da meta) 


onde ouvi aquelas pedras? 
são monolitos de Rosa 
ou sussurro minuano?


* Poeta e economista

Os coxinhas da periferia - Willian Novaes


Os coxinhas da periferia


* Por Willian Novaes


A periferia de São Paulo anda cada vez mais conservadora. A nova geração incorporou de vez o elitismo dos “quatrocentões paulistanos” do outro lado da ponte. Ignorância, racismo, preconceito contra favelados, nordestinos e outros predicados.

A maioria deve acreditar que toda periferia é um amontoado de favelas. Onde pobres e pretos vivem e são constantemente mortos pela Polícia Militar. Por outro lado, todos são eleitores do PT e que vivem em harmonia com os seus vizinhos. Sem preconceito. Mas não, dentro dos bairros periféricos ou favelas existem subdivisões de classes. Isso, claro, na cabeça dos seus moradores.

Muitos se orgulham de morar no Jardim tal ou na rua X. Mesmo que na rua ao lado tenha uma das maiores favelas precárias da cidade ou uma boca de fumo na sua esquina. O mesmo ocorre dentro da comunidade. Residir na rua principal do comércio pode se transformar numa barreira social na cabeça e na vida dos seus próprios moradores.

Esse é um fato observado em pesquisas diárias. Por poder conviver com pessoas que moram em diversos bairros periféricos da cidade e com outras nos bairros mais elitistas do mesmo município, observo  o intenso debate político que tomou conta do país. As “verdades” apareceram e os xingamentos na mesma proporção.

O maior e mais reacionário preconceito, principalmente contra Lula e o governo petistas, vem dos "ricos" da periferia. Por incrível que pareça, eles que acompanharam de perto a ascensão social das classes mais pobres, ou seja, os seus vizinhos de rua ou viela.

Essa turma, na maioria das vezes, é  herdeira de um ex-assalariado e – provavelmente - um atual aposentado, que infelizmente viu a sua renda familiar desabar. Pessoas que  não souberam aproveitar o boom de desenvolvimento que o país teve nos últimos 15 anos. E que não foram beneficiadas com os programas governamentais, pois não se aceitavam como pobres e não eram ricos para surfar no mercado financeiro ou na construção de alguma empresa.


A redução do rendimento familiar ocorreu porque o mercado de trabalho não precisava de pessoas bem intencionadas, mas sem qualificação, como aconteceu com os seus pais e avós. Por outro lado, os seus vizinhos que eram miseráveis aumentaram o seu poder aquisitivo, já que o patamar era bem mais baixo, e hoje formam  a nova classe média baixa.

Com a queda no rendimento  as grandes casas nas vilas ricas dos fundões da cidade ficaram sem as tradicionais reformas anuais (não sobrou $$$ para a tinta, nem para o novo portão e muito menos para o carro zero). Por outro lado, os favelados, agora, também têm bons sobrados e um carro zero (popular) na garagem. "Claro eles não pagam impostos e ainda recebem dinheiro do governo", visões claramente preconceituosas e deturpadas. Houve uma nova distribuição de renda no país. E uma grande parcela da sociedade se esforça para não entender esse fenômeno econômico social, atitude motivada por diversos fatores.

Os "quatrocentões das periferias" ainda moram nas comunidades por um único motivo:   seus pais ou avós foram migrantes nordestinos ou imigrantes refugiados de alguma guerra. Ambos chegaram a São Paulo miseráveis, fizeram algum dinheiro trabalhando, uma parte ficou rica e foi embora da “quebrada”, mas quem ficou não teve sucesso empresarial no mesmo calibre, mas conseguiu dar um  conforto bem maior para os seus filhos e netos, os atuais disseminadores do ódio.

O preconceito de classe no Brasil precisa atualizar o conceito Casa Grande e Senzala. Esse novo fenômeno ainda é pouco  abordado pelos cientistas sociais e precisa ser desmascarado. O pobre da periferia acredita em subdivisões. Provavelmente, como os grand petistas acreditavam que seriam aceitos nos clubes fechados da elite brasileira.


As atuais manifestações mostram com clareza esse novo modelo de  divisão do país. Para essas pessoas com visão elitista – que por incrível que pareça são completamente ignoradas pela real elite - o pobre merece ser mais pobre. Eles se consideram "coxinhas" e acreditam que quem é a favor do governo Dilma é ignorante e um mero comedor de mortadela. Esse é um fato que só pode existir no país da Jabuticaba e da palavra Saudade.

Mostrei para um amigo rico e colecionador de artes algumas mensagens de um grupo da zona norte, extrema periferia da capital paulista, que não se reconhecem como moradores da mesma, mas sim do Jardim X. A reação dele foi surpreendente e, após alguns segundos de leitura, com um sorriso no rosto ele disse "essa é a revolução dos desinformados, essa turma jamais vai frequentar a Casa Grande".

Enfim, o analfabetismo político, claramente, é um dos motivos, mas os pesquisadores precisam nos trazer outros fatores porque é muita esquizofrenia social para um povo só.

OBS.: Texto escrito antes do impeachment da presidente Dilma Roussef.

*Jornalista e editor da Geração Editorial.